O nome da exposição é sugestivo, pois a onomatopeia também pode ser usada para chamar a atenção, como um pedido de silêncio e como uma forma de manter segredo, entretanto nesse caso o seu uso foi para intitular a reunião de trabalhos desenvolvidos pela artista plástica Anna Maria Maiolino.
Ao todo, são 300 obras expostas e entre elas estão: pinturas, desenhos, xilogravuras, esculturas, fotografias, filmes, vídeos, peças de áudio e instalações que ocupam três salas do Instituto Tomie Ohtake.
Para melhor compreender o trabalho da artista, três núcleos distintos foram construídos. São eles: “Anna”, “Não Não Não” e “Ações Matéricas”. E a partir da trinca, o visitante conhece um pouco mais sobre a vida cotidiana de Anna Maria Maiolino, sobre os seus desejos intrínsecos, sobre sua postura feminista, sobre as lutas travadas contra a censura, a ditadura militar, a violência e desigualdades sociais e a favor da multiplicidade de pensamentos e da arte contemporânea.
Destaque para a instalação “Arroz e Feijão”, de 1979, onde a artista faz uma reflexão sobre a fome, provando que o problema persiste e que a temática está mais atual do que nunca, pois 33 milhões de brasileiros estão passando fome ou em situação de vulnerabilidade alimentar em pleno 2022. Pratos vazios e um vídeo da artista degustando a dupla brasileiríssima completam a instalação.
Outra obra interessante que está exposta no local é a nomeada “O amor se faz revolucionário”, onde Maiolino destaca as dores, os sofrimentos e o luto sentidos por mães que tiveram seus filhos mortos ou executados durante os anos de ditadura militar argentina.
Não há como não pensar diante da performance e da fotografia em branco e preto de Anna Maria chamada “Entrevidas” que compõem a série “Fotopoemação”, de 1981, onde ela caminha entre ovos de galinha dispostos em uma rua de paralelepípedos na intenção de conscientizar as pessoas a respeito do peso e lugar ocupado por cada um na sociedade.
Confesso que eu gostei muito de seus trabalhos feitos com argila que compõem a série intitulada “Terra Modelada” e que contou com a participação de várias outras mãos para a concretização da instalação, numa alusão às mulheres que trabalham com alimentos, que cozinham para os outros e que ajudam na realização de festividades comunitárias ou festas populares.
Agora, eu fiquei enfeitiçada quando estive frente-a-frente com as esculturas retorcidas de vidro e diante do vídeo documentário contendo depoimentos e entrevistas com amigos, conhecidos e colegas de trabalho de Anna Maria Maiolino. Nesse último, é possível saber a relevância de suas criações, sua vontade em trabalhar questões cotidianas e mestiças.
Então, aproveite que você está flanando pelo Instituto e visite também a exposição chamada “Por muito tempo acreditei que era livre” com retratos, paisagens, fotografias e performances que refletem sobre os corpos, além de questões sobre a sexualidade, a feminilidade, assim como as especificidades de se viver em uma sociedade votada para o externo como é a brasileira.
Por fim, não deixe de passar pela sala dedicada a Tomie Ohtake e percorrer o espaço construído com as pinturas que integram a mostra “A dança das águas”, onde relações entre a artista, o corpo, o gesto e o espaço são estabelecidos e onde há o esforço de Tomie Ohtake para evidenciar o movimento.
Para quem curte fazer passeios estimulantes, sensoriais ou gosta de ter contato com trabalhos desenvolvidos por mulheres criativas, inspiradoras ou representantes da vanguarda artística, eu indico a aventura!

Maria Oxigenada

Serviço:
Onde: Instituto Tomie Ohtake, localizado na rua Coropés, 88 – Pinheiros.
Temporada: até 24 de julho de 2022.
Quando: terça a domingo, das 11h às 20h.
Preço: grátis.