As friacas deste outono anteciparam a nossa vontade de cair de boca em sopas e caldos. Como diz o ditado popular: um prato de sopa quente aquece a alma, é revigorante, é nutritivo e concentra parte da cultura e história de um país.
A aventura do documentário “Coréia: o país das sopas” conta com três personagens principais: o cartunista e artista visual Huh Young Man, a atriz Ham Yon-Ji e o ator Ryu Su-Young que se dispuseram a percorrer todo o território da Coréia do Sul atrás de receitas seculares, bem como de restaurantes tradicionais e de novidades concentradas em pratos fundos e cumbucas de barro.
Sem dúvida alguma, as sopas estão no centro de todas as refeições coreanas e elas podem ser feitas usando diferentes ingredientes além dos legumes da estação, arroz branco e macarrão instantâneo, tais como: peixes e frutos do mar, carnes de porco, carnes de vaca, pedaços de frango, vísceras e miúdos de animais, além de chouriço (linguiça de sangue), salsichas, presuntos, carnes enlatadas e bolinhos coloridos.
Ao todo, o documentário conta com três episódios distintos com 51 minutos em média de duração, sendo que no primeiro deles o espectador segue a trilha junto aos personagens até a região de Jeju, localizada no sul do país, e onde há a tradição de feitio de sopas e caldos à base de peixes e frutos do mar.
Já no segundo episódio, quem está assistindo ao filme conhece os costumes e hábitos de consumo da região central da Coréia, especialmente na capital Seul, onde a carne bovina impera dentro das panelas e woks. No entanto, no terceiro capítulo do documentário o trio dirige-se ao norte, sobem as montanhas para provar sopas e caldos feitos com carnes de porco e pedaços de frango, além de abrir as suas papilas gustativas para releituras gastronômicas feitas por um chef de cozinha renomado.
Agora, o mais interessante de assistir ao documentário é observar como as paisagens locais e a natureza também integram e contribuem para as experiências vividas pelos três, pois a maresia, as tonalidades vistas nas cidades litorâneas, assim como os odores do campo, as louças e porcelanas usadas, a poluição visual dos grandes centros urbanos, a precariedade de alguns estabelecimentos comerciais e os rituais adotados nessas ocasiões; tudo estabelece diálogos e trocas com os visitantes e apreciadores da boa mesa.
Outro fato curioso é que vez ou outra, o trio opta por fazer suas refeições em conjunto com um destilado chamado soju, bebida feita a partir de arroz, mas que hoje também pode ser fabricado com outros cereais, tais como batata doce, trigo ou cevada.
Já os desfechos dos encontros nutritivos ocorridos especialmente nas regiões altas e nevadas foram acompanhados pelo consumo de arrozes doces fritos ocupando os lugares de outras sobremesas.
O fato é que a aventura durou cerca de três meses e durante todo o tempo de filmagem os envolvidos flanaram por restaurantes rústicos, populares, lugares paradisíacos e até restaurantes luxuosos. A colher é o utensílio que ganha os holofotes na maioria das refeições, cedendo espaço na mise-en-scène para o garfo e faca somente no último restaurante visitado, pois neste espaço os caldos e as sopas receberam roupagens mais estruturadas e menos aquosas.
O Brasil não tem tanta tradição no consumo de sopas e caldos porque é um país tropical e de altas temperaturas, entretanto as mais populares entre os apaixonados pelas delícias são: canja de galinha, caldo verde, sopa de feijão, sopa de fubá, sopa de ervilha, sopa de abóbora com gengibre, sopa de macarrão e legumes, sopa de mandioquinha, sopa de cebola, sopa de mandioca com carne seca, entre outras.
“Coréia: o país das sopas” conta com uma boa fotografia, boas encenações, boa cenografia e é um programa atrativo, pois trabalha com produtos autênticos, saborosos, encorpados e que refletem parte da identidade, cultura e tradição de uma nação.
Diversão certeira!

Maria Oxigenada
Foto: reprodução