“Sou poeta agricultor
Do interior do Ceará
a desdita, o pranto e a dor
canto aqui e canto acolá
sou amigo do operário
que ganha um pobre salário
e do mendigo indigente
e canto com emoção
o meu querido sertão
e a vida de sua gente…”
A estrofe acima integra o poema “O agregado e o operário”, de Patativa do Assaré, poeta sertanejo, repentista brasileiro e um dos principais representantes da arte popular nordestina do século XX. Com linguagem simples, porém poética o artista retratava a vida sofrida e árida do povo do sertão.
Um de seus poemas mais conhecidos é “Triste Partida”, de 1964, e ele foi gravado e musicado por Luiz Gonzaga. Além disso, o poeta teve seus livros traduzidos para vários idiomas e alguns até viraram tema de estudos na Universidade de Sorbonne (Paris), na cadeira de Literatura Popular Universal.
Vocês já o conheciam? Confesso que eu só descobri sua história pessoal e seus poemas recentemente e após conferir a peça infantil “O pássaro poeta”, do Núcleo Caboclinhas, de São Paulo.
De maneira lúdica e musicada, duas atrizes/cantoras apresenta o artista para a molecada. A aventura entre as letras começa quando o poeta tinha 13 anos, mas foi somente quando ele completou 16 anos é que ele comprou uma viola e começou a arar as palavras.
Seus poemas falavam sobre a terra, a fome, a natureza, a beleza do canto do pássaro nativo da Chapada do Araripe que o batizou artisticamente, além do
amor, das saudades da infância e mocidade, da vida campesina e das desigualdades socioeconômicas que assolam até hoje o nosso país.
O interessante é que Patativa nunca deixou de ser agricultor ao longo de sua vida e de morar na mesma região onde se criou no interior do Ceará. Seu trabalho se distingue pela oralidade e está impregnado pela linguagem corporal, por expressões faciais, assim como pausas, ritmos, entonações distintas e até pigarreadas.
Diferente da galera atual, Patativa do Assaré nunca correu atrás da fama e não tinha a intenção de plantar livros, mas suas colheitas foram fortuitas e somaram dezenas de poemas e cordéis, além de um LP chamado de “Poemas e Canções” que foi gravado no teatro José de Alencar (Fortaleza) e produzido pelo cantor e compositor Raimundo Fagner.
Através de repentes, do uso de instrumentos musicais como violão, triângulo, pandeiro, chocalhos, entre outros de percussão, além de uma cenografia construída com um varal contendo vários cordéis pendurados, bonecas de pano e objetos cênicos espalhados pelo chão foi possível fazer uma imersão ao universo criativo do artista.
A peça “O pássaro poeta”, do Núcleo Caboclinhas, abriu uma janela para que eu aprofundasse minhas leituras e conhecimentos não só sobre a cultura nordestina, mas também sobre seus principais representantes.
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada