A minha casa tem vida! E apesar de já ser uma quarentona, ela continua dinâmica, empática, acolhedora e misteriosa! Vez ou outra, eu tenho a sensação de fazer parte da animação “A Bela e a Fera”, pois alguns objetos, eletrodomésticos e acabamentos possuem seus lugares de fala localmente.
Deixe-me explicar …
Vários são os fenômenos que a cerca e dentre eles estão: a geladeira, por exemplo, geme o tempo inteiro para a produção de cubos de gelo e para a manutenção da temperatura interna. Seus gemidos aumentam ainda mais com o abrir e fechar constante de sua porta.
Já os móveis de madeira maciça, herdados da vovó, são outros que não conseguem silenciar suas atividades físicas, especialmente quando há mudanças bruscas de temperatura. Nessas ocasiões não só as mesas como também as cadeiras, os armários e os batentes das portas estralam sem parar, criando uma sinfonia reconhecível somente aos antigos moradores.
Isso sem dizer no batuque feito pelas venezianas dos quartos que precisam ter seus dormentes apoiados por calços de papel para amenizar os resmungos noturnos. Agora, e o mau humor do portão de ferro da garagem? Ele só abre depois de entoar um mantra por cinco minutos.
No entanto, são as constantes e inesperadas visitas que a casa recebe é que a agita ainda mais, tirando o sossego do Almôndega. Nós já fomos surpreendidos com a chegada de escorpiões amarelos anos atrás, com a presença de saruês mostrando os caninos para o meu melhor amigo, além felinos desfilando pelo telhado e pombas querendo fazer seus ninhos nos vasos de plantas de minha mãe.
Pois bem! Ontem, eu estava deitada no sofá da sala, assistindo a novela “Pantanal” quando eu percebi a entrada sorrateira de algo pela portinhola aberta. Ignorei achando que fosse uma lagartixa ou um louva-a-deus, mas passados alguns segundos ouvi outra corrida através do carpete de madeira e em direção
ao corredor dos quartos e me deparei com um ratinho olhando pelo seu retrovisor pessoal.
Pendurei no lustre na ocasião, pensando em como avisar meus avós e meus pais sobre os roedores. A solução foi espalhar recados escritos pelos cômodos como na boca da geladeira, no tórax da mesa da sala de jantar ou nos olhos do fogão, mas a verdade é que o desassossego já tinha invadido minha alma.
Só digo uma coisa para vocês…a noite foi longa e movimentada! Como se não bastasse o bravejar dos céus e o chorar das nuvens, do meu quarto eu também ouvi as brincadeiras feitas pela dupla de orelhas rosadas, especialmente “pique-esconde” e “balança caixão”, mas eles tiveram a ousadia de derrubar não só o carregador de celular que estava dormindo na mesinha de canto como o frasco de remédio do meu avô.
Na verdade, não sei bem se preguei meus olhos durante a noite. O que sei é que os meus demais sentidos estavam de sentinela e me alertando sobre a festa surpresa e sobre a possibilidade de rolar bundalelê até o amanhecer, há, há, há…
E antes que alguém arrastasse os chinelos até o banheiro pela manhã, eu já estava de pé, munida de uma vassoura e esperando pela revelação. É claro que ela não aconteceu de imediato, somente com a ajuda do Almôndega que farejou os bonitos atrás da máquina de lavar louças, na cozinha. Os roedores estavam esperando pelo banquete de farelos e cascas de pão depositados no chão após o término do café da manhã.
A maldição foi que nem o Almôndega, nem ninguém conseguiu matá-los, apenas os afugentamos para o quintal de casa, onde os roedores puderam praticar sandboard pela grama molhada, escorregando até as fendas do portão da garagem para enfim mergulhar na boca de lobo, localizada em frente da catraca doméstica. Que perrengue, Oxigenadas!
Loucura maior é que desde então, estou com a sensação de estar sendo vigiada não só pelos objetos e eletrodomésticos da minha casa, como também pelos olhos de seus moradores flutuantes que querem reclamar pelos seus direitos e espaços de pertencimento, há, há, há…
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução