A narrativa do livro “Tudo é rio”, de Carla Madeira, é construída com passagens sobre a crueza da vida, além da descrição da faceta violenta do amor, bem como a presença de relações líquidas com a propensão de mudar os cursos dos personagens de maneira imprevisível.
Quem começa a leitura não tem ideia de onde a história irá desaguar! Mas o certo é que uma correnteza de acontecimentos envolve o trio protagonista formado por: Dalva, Venâncio e Lucy.
Dalva e Venâncio são amigos de infância que se casam na juventude, mas o conto de fadas imaginado para os personagens é, literalmente, afogado por uma tragédia familiar e pela chegada da prostituta Lucy na vida da dupla.
O fato é que a personagem despudorada está acostumada com superfícies aquosas e em surfar diariamente através de pingos de suor, gotas de sêmen e nascentes de saliva brotadas em bocas ou alcovas, mas não com a secura e rejeição de um homem.
O problema é que o trio protagonista acaba sendo vítima do redemoinho que é o destino que tem a capacidade de sugar um para próximo do outro para serem engolidos por outros dramas apresentados na obra.
Um deles é a insistência de Lucy em ter Venâncio em seus lençóis. Outro é a recusa do bonito em desfrutar a intimidade com a puta mais bonita e famosa da cidade. Isso sem dizer no arrastar de correntes diário de Dalva no trajeto entre sua casa e a igreja.
O mais interessante de “Tudo é rio” é que o livro levanta questionamentos a respeito da capacidade humana de perdoar, assim como mergulha os personagens em sentimentos negativos, tais como o ódio, a raiva e a fúria; todos com possibilidades de drenar a sensibilidade, a compaixão e a autoestima de qualquer pessoa.
Com isso, o sangue que corre pelas veias ganha viscosidade e características das relações abusivas, problemáticas, com embocaduras para as tragédias e com propensão aos finais infelizes, mas com elementos suficientes para fazer a alegria de leitores acostumados com a turbidez dos dramas.
Na intenção de prender a atenção de quem está lendo, a autora constrói uma narrativa que avança e recua no tempo, com cenas de flashback, com descrições de ambientes e situações eróticas envolvendo os personagens, além do desenvolvimento de uma história com reviravoltas e final surpreendente!
“Tudo é rio” é uma leitura fácil, pois a artista escreve de forma simples, direta, sem constrangimentos e sem a presença de barrigas narrativas. A obra não é novidade no mercado editorial, pois foi lançada em 2014, mas recentemente ganhou nova edição pela Record e novo fôlego, pois foi um dos livros mais lidos durante a pandemia, atrás somente de “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior.
Para quem não sabe, Carla Madeira lançou seu terceiro livro em novembro de 2021 e ele foi batizado de “Véspera”, mas ela também é autora de “A natureza da mordida”, lançado em 2018.
Eu gostei da enxurrada de acontecimentos descrita em “Tudo é rio” e espero que ela seja adaptada para linguagens cinematográficas!

Beijos,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução