Quem nunca falou uma mentirinha? Pode ser inofensiva e feita como brincadeira de 1 de abril ou maldosa, espalhada através das redes sociais e envolvendo milhões de pessoas. Durante a pandemia, elas pipocaram e órgãos públicos, a imprensa e autoridades tiveram trabalho extra para esclarecê-las, especialmente as relacionadas à saúde pública e as vacinas contra a Covid 19.
A peça “A mentira”, de Florian Zeller, trata de outro tipo de mentira e aquela criada para proteger quem se ama através da omissão. O drama da narrativa gira em torno de Alice (Danielle Winits) que entra em conflito após testemunhar a traição de Michel (Fred Reuter), melhor amigo de seu marido, em um café no shopping.
A personagem não sabe o que fazer com a informação e titubeia em contar a verdade para Laura (Alessandra Verney), esposa de Michel, durante um jantar realizado em sua casa. Seu marido Paulo (Miguel Falabella) não vê necessidade de tal atitude, pois alega que há limites para episódios de sincericídio e que os dois não deveriam se meter na vida conjugal da dupla.
No entanto, Alice apresenta outros argumentos a Paulo e durante a refeição acaba questionando o casal sobre traições, sobre possíveis reações e sobre os meandros de relacionamentos duradouros. A estratégia para soltar e calibrar as línguas das visitas é através da oferta de taças de espumantes e vinhos tintos.
O humor, as tiradas sarcásticas e o jogo cênico criado pelos atores colaboram para que os espectadores não se sintam entediados diante do quarteto, acompanhando as discussões, as consequências e alguns viés dos fatos, pois narrativas diferentes podem ser desenvolvidas a partir da criatividade e imaginação de quem está contando-as.
A verdade é que o enredo de “A mentira” é destinado àqueles espectadores pouco acostumados com o teatro, pois seu roteiro assemelha-se aos desenvolvidos em telenovelas com movimentos circulares e uma história de fácil digestão que não exige reflexões profundas.
Apesar disso, é admirável o domínio de palco dos atores e a química exalada entre o ator, diretor e produtor Miguel Falabella e a atriz Danielle Winits. Eu já tinha visto os dois contracenando conjuntamente no musical “Os Produtores”, em 2018. Outro ponto que gostaria de ressaltar é a expressão corporal e timing para a comédia de Danielle Winits que ajudam na construção da altivez de sua personagem e na criação de momentos de escapismo na trama.
Quanto à cenografia da peça, ela é simplista e conta com poucos móveis para a simulação de uma sala de estar e parte da cozinha doméstica. O figurino também segue na mesma linha, com peças com linhas retas, secas, mas com cores (vermelho) e estampas (xadrez) que reforçam a dramaticidade das situações e o jogo inteligente das palavras trocadas.
Para as Oxigenadas que buscam por boas risadas e diversão, eu indico a peça “A mentira”.
Até a próxima aventura,
Maria Oxigenada

Serviço:
Onde: teatro Claro, localizado na rua das Olimpíadas, 360.
Temporada: até 29 de maio de 2022.
Quando: sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h.
Preço: a partir de R$ 50,00.
Duração da peça: 80 minutos.
Foto: reprodução