O filme “Belfast” é a cristalização das memórias da infância do diretor Kenneth Branagh e elas foram reunidas em uma obra feita em branco e preto com a intenção de mostrar a crueza da vida e melhor construir os dramas familiares.
No entanto, a narrativa acompanha Buddy (Jude Hill) no auge de seus nove anos e lidando com os problemas típicos de sua idade como chamar a atenção e conquistar Catherine (Olive McDonald), seu crush da escola, além de trocar confidências com seu avô (Ciarán Hinds), participar das aventuras propostas por sua prima Moira (Lara McDonnell) ou se divertir com filmes de ação.
E apesar de não compreender a profundidade dos problemas que o cerca, tais como: os conflitos entre protestantes e católicos ocorridos entre 1968 e 1998 na Irlanda do Norte, assim como as dificuldades financeiras passadas pela sua família, o caçula absorve tudo o que está ao seu entorno e é observador atento das mudanças ocorridas no seu bairro, com seus vizinhos e dentro de casa.
A história de “Belfast” é simplista, contida e açucarada, mas sua graça está justamente em acompanhar os olhares lançados, o raciocínio, a ingenuidade e as reações do seu protagonista. Destaque para as cenas em que o personagem principal tem pesadelos com os sermões ouvidos na igreja ou a cena em que ele participa de uma invasão em um empório local e não larga de jeito algum a caixa de sabão em pó roubada durante a sua fuga. Hilárias!
“Belfast” está concorrendo em sete categorias distintas no Oscar 2022. São elas: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro original, melhor atriz coadjuvante (Judi Dench), melhor ator coadjuvante (Ciarán Hinds), melhor som e melhor canção (“Down to Joy”).
O pesar foi a atriz Caitriona Balfe que interpreta a mãe de Buddy e Will (Lewis McAskie) ter sido ignorada pela academia, pois ela constrói uma personagem altiva, determinada, responsável e muito amorosa! Ela seria um contraponto às figuras maternas interpretadas por Olivia Colman (A filha perdida), Penélope Cruz (Mães Paralelas) e Kristen Stewart (Spencer).
Entretanto, a participação feminina de “Belfast” não foi ignorada por completo e a academia reconheceu o trabalho desenvolvido pela atriz Judi Dench, indicando-a como melhor atriz coadjuvante. Sua avó é construída de maneira primorosa, auxiliando os pais dos garotos no desenvolvimento emocional deles, bem como na criação de lembranças familiares e ambientes amorosos. Destaque para a cena em que ela e o marido dançam diante dos olhos curiosos de Buddy e das câmeras.
No último dia 13 de março, “Belfast” ganhou o prêmio de melhor filme britânico durante a cerimônia do Bafta (British Academy Film Awards), entretanto a película já tinha sido contemplada com um Globo de Ouro de melhor roteiro no início deste ano e o filme também abocanhou três outras estatuetas (melhor ator revelação para Jude Hill, melhor elenco e melhor roteiro original) na edição do Critics Choice Awards de 2022.
Outro ponto positivo é que o filme conta com músicas de Van Morrison, com a fotografia feita por Haris Zambarloukos e por uma cenografia contendo as nuances e detalhes fidedignos da época.
Para quem gosta de acompanhar histórias pessoais, com pitadas dramáticas, com finais comoventes e que contenham um fundinho histórico, eu indico “Belfast”.

Maria Oxigenada
Foto: reprodução