“Eu ando pelo mundo prestando atenção,
Em cores que eu não sei o nome,
Cores de Almodóvar,
Cores de Frida Khalo, cores…”
A estrofe da música “Esquadros”, de Adriana Calcanhotto, identifica ferramentas exploradas pelo cineasta Pedro Almodóvar em suas películas. Em “Mães Paralelas”, as tonalidades quentes também estão presentes, aumentando as vibrações de algumas cenas.
A carga dramática da obra é grande, pois o filme levanta questionamentos sobre a maternidade através de suas duas protagonistas: Janes (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit). Ambas se conhecem na maternidade e minutos antes de darem à luz às suas filhas.
Para nenhuma delas a maternidade foi planejada e elas foram surpreendidas com os seus testes positivos. No longa-metragem, Janes é uma fotógrafa bem-sucedida, mulher independente e madura que engravidou após ter um breve caso amoroso com o antropólogo Arturo (Israel Elijalde). Já Ana é uma jovem de 17 anos que engravidou depois de ser vítima de violência.
O interessante é observar que os desafios da maternidade são os mesmos para as duas personagens. Apesar disso, Ana é a que mais sofre nos primeiros meses de vida de sua filha, pois não pode contar com o apoio de seus pais e precisa aprender a cuidar de si e de sua bebê sozinha.
Outro fato existente na obra é que um episódio trágico interliga a vida das duas personagens para sempre e o espectador passa a acompanhar o cotidiano delas. Agora, o destaque da película é que uma história paralela também é desenvolvida e essa envolve outras mães, ou seja, as mães e mulheres que perderam seus filhos, maridos e irmãos durante a guerra civil espanhola.
Costuras narrativas são feitas diante dos olhos do espectador na intenção de tornar crível o entrelaçamento de assuntos, bem como transparecer as dores coletivas sofridas por uma nação, além da burocracia envolvida para desenterrar e reconhecer os restos mortais de familiares.
O encontro da história contada por “Mães Paralelas” com a História que está sendo escrita neste momento através da guerra entre Ucrânia e Rússia nos faz refletir a respeito da violência, dos traumas globais, das chagas expostas, das memórias construídas através da oralidade e registros oficiais, da capacidade humana e de como viver também é um ato político.
“Mães Paralelas” recebeu duas indicações distintas no Oscar de 2022. São elas: melhor atriz para Penélope Cruz e melhor trilha sonora com repertório feito por Alberto Iglesias.
A atriz Penélope Cruz se esforça para compor sua personagem dentro da complexidade em que ela está imersa, mas eu não sei se ela bate a interpretação desenvolvida por Olivia Colman, protagonista do filme “A filha perdida”, que veste a indumentária de mãe sobrecarregada pelas próprias lembranças confusas, intensas e de insatisfação proporcionadas pela maternidade.
O que é perceptível em “Mães Paralelas” é que o diretor Pedro Almodóvar não quis polemizar tanto como em outras obras de sua autoria, apresentando uma história de fácil acompanhamento e previsão.
Eu indico o filme para quem deseja estar diante de um produto com estética singular, construído pela fotografia de José Luís Alcaine, pela direção de Antxón Gómez, pelas atuações de atores experientes que flanam através das cores, dores e criatividade de Pedro Almodóvar.
Beijos,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução