Se em 2021 havia o filme “Mank” como representante em branco e preto nas premiações do setor cinematográfico, este ano há “Identidade”, película rodada no formato 3:4 (imagens quadradas) também nas cores contrastante.
A obra é a adaptação do livro “Passing”, de Nella Larsen, e foi dirigida por Rebecca Hall. Ela é ambientada em Nova Iorque, na década de 20, e conta com duas protagonistas femininas. São elas: Claire Kendry (Ruth Negga) e Irene Redfield (Tessa Thompson).
As amigas de infância se reencontram inesperadamente em um restaurante local em uma tarde de verão. No entanto, não há o reconhecimento imediato entre elas, pois Claire está com uma aparência diferente da ostentada no passado.
Hoje, ela desfila com suas madeixas pintadas de loiro, sobrancelhas descoloridas, além de roupas finas, joias, chapéus e por baixo de camadas espessas de maquiagem, pois casou-se com John (Alexander Skarsgard), banqueiro branco e com ele teve uma filha que estuda na Suíça.
Já Irene tem uma realidade completamente diferente da amiga, pois fortaleceu suas raízes no bairro do Harley, é casada com o médico Brian Redfield (André Holland), possui dois filhos, é uma ativista social e promotora de bailes e saraus voltados para a comunidade negra local.
Logo de cara, uma tensão é instalada entre as duas porque Irene percebe a recusa de Claire em aceitar às suas heranças culturais, a sua cor de pele, bem como a sua necessidade de ostentar uma farsa diante do seu marido racista; tanto que acha graça de seus comentários preconceituosos e inoportunos.
E com a proximidade, as duas são consumidas pela inveja e vontade de desfrutar do cotidiano uma da outra, pois a verdade é que nenhuma delas é totalmente feliz e livre e ambas continuam se submetendo a uma estrutura social perversa.
“Identidade” é um filme recheado de sutilezas, detalhes de encenação, interpretações contidas, além de contar com um desfecho dramático, mas sua força está nos assuntos abordados que vão além do colorismo e dos traumas deixados por episódios racistas registrados na História americana.
A diretora Rebecca Hall faz questão de jogar luz em outras questões como os desejos femininos, a repressão sexual dos anos 20, bem como o patriarcado e as limitações sociais das mulheres negras.
Agora, o melhor da película é mesmo a sua reconstituição de época, a sua fotografia que trabalha com a nuances existentes entre o preto e branco, além dos figurinos desfilados pelo elenco e a sua trilha sonora composta por 21 músicas de artistas, tais como: Devonte Hynes, Emahoy Tsegue-Maryam Guebrou, Alberta Hunter, Paul Lenart & Bill Novick, The Fat Babies, Jonathan Doyle, entre outros.
Em “Mank”, o destaque recaiu sobre a atuação de Gary Oldman, intérprete do roteirista Herman Mankiewicz, responsável pelo filme “Cidadão Kane”. Já em “Identidade”, quem chamou a atenção foi a atriz Ruth Negga que construiu sua personagem de maneira extrovertida, mas imbuída em uma névoa misteriosa e que ostentava uma pequena bruma agressiva.
A atriz irá concorrer como melhor atriz coadjuvante no SAG Awards 2022 e repetirá sua presença na lista de indicados para o Independent Spirit Awards, entre outras premiações agendadas para acontecer nas próximas semanas.
Eu indico “Identidade” àquelas Oxigenadas que desejam acompanhar um drama protagonizado por mulheres ou para as que gostam de ficar diante de belezas criadas por mãos femininas como as da diretora Rebecca Hall.

Maria Oxigenada
Foto e video: reproduções