Em nome do Pai, do Filho e da Casa Gucci! Sim! Essa é a frase icônica da película, proferida pela protagonista Patrizia Reggiani (Lady Gaga) e que carrega consigo uma dose de ironia em relação à religiosidade dos italianos e outra porção de exagero por parte da personagem.
No entanto, a diversão do filme está justamente em acompanhar os excessos visuais, comportamentais e de interesses de Patrizia Reggiani depois que ela conhece e se casa com Maurizio (Adam Driver), um dos herdeiros da marca Gucci.
Logo de cara, o espectador toma ciência de que a personagem pertence à classe média, é descendente da máfia milanesa e cresceu longe dos privilégios gozados pela aristocracia italiana, mas rapidamente aprende o significado do poder, conforto, status social, luxo e tudo o mais que o dinheiro em abundância pode comprar e proporcionar.
O problema é que bufunfa em demasia também se torna chamariz para a cobiça, a ganância, a vingança alheia, assim como estimula episódios de corrupção e traição entre os endinheirados.
Pois bem! O enredo da obra trata de tudo isso e muito mais! Como, por exemplo, do assassinato de Maurizio Gucci a mando de seu ex-esposa Patrizia com a ajuda da sensitiva Pina Auriemma (Salma Hayek) e outros dois matadores de aluguel ou as mudanças promovidas pela label depois da entrada de investidores estrangeiros e a reconstrução de sua imagem perante o mercado fashion com a contratação de novos talentos criativos como o estilista Tom Ford que trouxe um forte apelo sexual à marca na década de 90.
Nesse interim, quem está acompanhando a aventura também toma ciência dos altos e baixos vividos pelo casal protagonista, além dos dramas sofridos pelos demais integrantes da família Gucci com a prisão do seu fundador Aldo (Al Pacino) por sonegação de impostos, além da doença e morte de Rodolfo (Jeremy Irons), sócio da label e pai de Maurizio ou as estupidezes praticadas por Paolo (Jared Leto), filho de Aldo.
De interessante, “Casa Gucci” conta com uma trilha sonora construída com 45 músicas ao todo e que são de George Michel, Donna Summer, David Bowie, New Order, Amy Winehouse, Pet Shop Boys, Lady Gaga, Lana Del Rey, Blondie, Doris Day, La Femme, Laura Branigan, Nuno Freitas, Eartha Kitt, Caterina Caselli, entre outros cantores e compositores.
Outro ponto positivo é a reunião de artistas em uma única película, além das trocas cênicas realizadas entre Al Pacino e Jared Leto e a química sentida entre Lady Gaga e Adam Driver. O ator Jeremy Irons não fica atrás e apesar de sua participação ser pequena na obra, ele consegue construir um personagem amargo, conservador e solitário.
Quanto aos sotaques desenvolvidos pelos atores e que foram criticados pela imprensa, confesso que dei muitas risadas com eles ao longo da película. O bacana é que Lady Gaga não abandona Patrizia ao longo dos minutos, mantendo-o até o final da película. Já o ator Adam Driver acaba suavizando seu acento italiano conforme a história avança.
Outro ponto que gerou burburinho entre quem já conferiu a obra foi o figurino ostentado pelos personagens e, apesar de over, eu os achei coerentes com o maximalismo visto na década de 80 e que respingava em roupas, acessórios, penteados e maquiagens daquela época.
“Casa Gucci” termina nos tribunais e com a protagonista da obra recebendo sua sentença de 29 anos de reclusão pelo crime cometido. Apesar disso, ela ainda tira-onda diante do juiz com o sobrenome fashion. Patrizia Reggiani amargou 18 anos atrás das grades, mas hoje flana por Milão linda, leve e solta, há, há, há…
Atualmente, a marca Gucci pertence ao grupo francês kering e seu atual diretor criativo é Alessandro Michele. Em 2019, a grife teve um dos maiores lucros de sua história, com aumento de 16,2% no faturamento de 9,62 bilhões.
Por trazer à tona um crime que chocou o mundinho da moda, por ser inspirado em filmes de máfia, mas não contar com sangue escorrendo pela telona e por levantar a poeira do que acontece por trás do glamour refletido por marcas de luxo, então eu indico a obra.

Maria Oxigenada
Foto e video: reproduções