Falar sobre doenças incuráveis, sobre a evolução de patologias graves, sobre o sofrimento alheio, além de perdas e da finitude humana nunca é tarefa fácil! No entanto, há quem consiga enxergar beleza na dor, transformando-a em um produto artístico.
O espetáculo de dança “Cura”, da Companhia Deborah Colker, fala exatamente disso e seu enredo constrói caminhos entre a ciência e a fé, perpassando pela ancestralidade, por questões genéticas, pelo processo de aceitação humana, bem como pelas lutas travadas individualmente por cada um dos doentes.
Logo de cara, o espectador escuta a história de Obaluaê, orixá da saúde e da cura através da voz de uma criança, descobrindo que por baixo de suas palhas está o segredo de sua luz, da vida e da morte, do bem e do mal.
No entanto, outras divindades são evocadas metaforicamente no palco através da dança, do canto (sufis) e da réplica de rituais e movimentos pertencentes às cerimônias religiosas ou oriundos da cultura indígena, da cultura africana ou da cultura mestiça como é a nossa.
O amor incondicional é o sentimento impulsionador da aventura, pois “Cura” foi concebido a partir da experiência pessoal da coreógrafa Deborah Colker com seu neto Téo, pois ele é portador de epidermólise bolhosa, doença genética e hereditária rara que provoca a formação de bolhas na pele por conta de mínimos atritos ou traumas.
Para quem desconhece tal patologia, ela não é transmissível e seus portadores são apelidados de “crianças borboletas” porque suas peles se assemelham as asas de uma borboleta devido a fragilidade provocada pela alteração nas proteínas responsáveis pela união das camadas da pele.
Como a epidermólise bolhosa há uma infinidade de outras doenças incuráveis que demandam conhecimento, saberes, humanidade e generosidade por parte não só de pesquisadores e médicos, como também de quem está em contato direto e no entorno do paciente como familiares, professores, amigos, colegas…
toda essa jornada ficcional não poderia terminar sem que houvesse citações a respeito de forças invisíveis, de mistérios ainda não desvendados pelo homem e de milagres ocorridos.
De positivo, “Cura” conta com uma trilha sonora feita pelo compositor, cantor e percussionista Carlinhos Brown especialmente para o espetáculo, além da inserção da canção “You want it darker”, de Leonard Cohen, e de momentos de quietude e silêncio absoluto no palco.
Outro destaque é que pela primeira vez na história da companhia, o seu corpo de baile canta e dança conjuntamente sob os holofotes. E a voz infantil que começa contando essa história fictícia é a do próprio Téo, neto da coreografa.
Agora, o que dizer a respeito do figurino? Incrível! Peças texturizadas, feitas de vinil e látex na intenção de reproduzir tecidos dérmicos e camadas da pele humana, além de criar associações narrativas com a circulação sanguínea e com sentimentos como raiva, poder, energia, amor, entre outros.
Já cenograficamente, o espetáculo começa trazendo réplicas suspensas das vestes de palha de Obaluaê, entretanto passado a sua abertura há o empobrecimento do cenário visto com poucos objetos cênicos ocupando o tablado como rampas, caixas modulares e palavras projetadas.
Desta vez, os 13 bailarinos em cena não realizam acrobacias que desafiam a gravidade ou criam tensão em quem as está assistindo como ocorreu em shows anteriores como “Velox” e “Rota”. Nada disso! A coreografia vista é construída com passos de balé e de dança contemporânea.
Por tudo que foi dito, “Cura” não é um espetáculo de fácil assimilação! E nem poderia ser, né!? Confesso que cheguei ao teatro com as minhas expectativas nas alturas e o achei cansativo, com poucos pontos de virada em seu roteiro e aquém do espetáculo “Cão sem Plumas”, baseado no poema de João Cabral de Melo Neto e que achei lindíssimo!
Apesar disso, eu indico “Cura” por trabalhar as questões humanas mais profundas, os sentimentos e fatos irrefutáveis da vida.
Maria Oxigenada

Agenda:
São Paulo: até dia 14 de novembro de 2021, no teatro Alfa.
Recife: dias 20 e 21 de novembro, no teatro Guararapes.
João Pessoa: dias 24 e 25 de novembro, no teatro Pedra do Reino.
Natal: dias 27 e 28 de novembro, no teatro Riachuelo.
Fortaleza: dias 02 a 05 de dezembro, no teatro José de Alencar.
São Luís: dias 08 a 12 de dezembro, no teatro Arthur de Azevedo.
Belém: dias 15 a 18 de dezembro, no teatro Margarida Schivasappa.