As memórias da atriz Fernanda Montenegro estão reunidas no livro “Prólogo, Ato, Epílogo”. E por que lê-lo? Primeiro para saber a trajetória profissional de uma de nossas damas da dramaturgia nacional. Segundo para tomar ciência de quão incansável foi e é Arlette Pinheiro (seu verdadeiro nome), pois em sua conta há quase 200 trabalhos realizados em veículos distintos, tais como: rádio, teatro, cinema e televisão. E terceiro porque a obra é toda costurada por acontecimentos históricos, políticos, culturais, além de episódios de censura vivenciados durante os anos de ditadura militar.
No Prólogo, o leitor fica sabendo que a atriz é descendente de italianos e portugueses e que seus avós foram imigrantes que chegaram ao Brasil atrás de empregos e uma vida melhor do que a que estavam vivendo na Europa. No entanto, seus antepassados dedicaram-se à agricultura e ao pastoreio.
O primeiro contato com o palco veio ainda menina, com oito anos de idade, e após pisar no tablado existente no fundo da igreja de São Sebastião. Já na adolescência, ela participou de uma seleção para ingressar em uma rádio carioca e assim deu o pontapé ao ofício que exerce até hoje.
Dentre os jovens atores e entusiastas que circulavam pela rádio estava Fernando Torres, seu marido. A parceria entre os dois começou de verdade durante os ensaios da peça “Alegres canções na montanha” e ao lado de outros nomes do teatro brasileiro montaram e encenaram dezenas de peças juntos.
E o tanto de perrengues que esses dois passaram? Não foi brinquedo, não! A maioria deles foi por causa dos baixos salários pagos, por empréstimos feitos em bancos para a montagem de novas produções, pela falta de investimentos no setor cultural por parte dos governantes, pelos planos econômicos impostos à população, pela chegada dos filhos e os desafios de sustentá-los através da arte.
Para isso, a atriz precisou se reinventar várias vezes e não se acomodou diante de críticas positivas, prêmios e condecorações recebidos, inclusive internacionais, e simplesmente seguiu em frente com seus projetos.
A curiosidade da obra fica por conta do convite recebido por Fernanda Montenegro pelo ex-Presidente da República José Sarney para assumir o ministério da cultura em seu governo, mas ela gentilmente negou a oferta. No livro, o leitor tem acesso a carta enviada pela artista à autoridade justificando sua recusa e sugerindo, posteriormente, o nome de Jorge Furtado para o cargo.
Os reflexos do feitio, bem como do sucesso alcançado pelo filme “Central do Brasil” que culminou na obtenção do Urso de Ouro de melhor película, assim como do Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim de 1998 também estão presentes nas páginas de “Prólogo, Ato, Epílogo”. Isso sem dizer na indicação tanto da obra como da atriz ao Oscar 1999, além da obtenção da estatueta de melhor atriz dada pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles.
Paralelamente aos louros alcançados, há o adoecimento de Fernando Torres e o início de um tratamento equivocado que perdurou por anos a fio. No livro, a artista fala que apesar da fragilidade física e emocional de seu companheiro, ele continuou a frente dos projetos do casal, produzindo peças, ensaiando textos junto aos atores e administrando os negócios da família.
Segundo ela, sua partida em 2008 foi uma tristeza, mas passados seis meses de luto, Fernanda voltou ao trabalho, tanto no teatro quanto na televisão e cinema, espessando ainda mais seu repertório interpretativo e o reconhecimento público.
No epílogo, a artista faz um balanço de sua carreira, sobre o significado da arte de representar, sobre os papéis desempenhados pelos atores na sociedade, sobre o respeito que possui a todos os profissionais atuantes na área, desde os acadêmicos até os contestadores, sobre o público e sobre o ponto final de sua própria jornada pessoal.
E a conclusão tirada ao final da leitura é que o caminho trilhado pela atriz nunca foi o fácil e sim o do trabalho suado, duro, exigente realizado ao longo de décadas e que possibilitou que hoje ela seja considerada uma das referências brasileiras na arte da interpretação.
“Prólogo, Ato e Epílogo” é um livro gostoso de ser lido, pois ele conta com fotografias e documentos ilustrando cada uma das histórias presentes. E apesar da obra somar mais de 300 páginas, sua escrita é simplista, não demandando interpretações profundas e nem pesquisas de palavras em dicionários.
Eu indico a leitura de “Prólogo, Ato e Epílogo” por vários motivos. São eles: para conhecer os pormenores da vida profissional de Fernanda Montenegro, para celebrar seus 92 anos, para construir mais um arcabouço de memórias culturais particulares e, principalmente, para ter ciência de que nada nessa vida cai do céu e é fruto da sorte.
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução