Dentre tantas habilidades que um cozinheiro ou chef de cozinha precisa desenvolver ao longo de sua carreira, talvez trabalhar com os cinco sabores (doce, amargo, salgado, azedo e umami) seja uma das principais. Já a tarefa atribuída a um diretor de cinema não é muito diferente, pois cabe ao profissional construir uma narrativa com texturas distintas, com algumas surpresas e reviravoltas na história, além de recheá-la com personagens intrigantes e que não facilitam a digestão imediata da obra.
Há uma fatia do mercado que curte consumir realities shows, programas e filmes de gastronomia, sempre na intenção de acompanhar as alquimias realizadas dentro de cozinhas profissionais. Na película “Abe”, o espectador percebe logo de cara a paixão do garoto Abe (Noah Schnapp) pelas panelas, por descobrir novos sabores, além de sua vontade de fazer novas fusões.
Referências culturais e gastronômicos ele tem de sobra, afinal de contas é morador do Brooklyn, lugar queridinho da galera cool nova iorquina, e fruto de uma mãe judia e um pai muçulmano. Os encontros familiares à mesa são sempre eventos surpreendentes! Não no bom sentido da palavra, pois ao invés do compartilhamento de alegrias, experiências e sabores, o que se vê na película é a transformação da mesa em um lugar de conflito, especialmente entre seus avós que adoram discutir sobre temáticas políticas ou religiosas.
O fato é que a vida de Abe é um verdadeiro mexidão! E os sabores do filme ganham uma maior picância depois da chegada de Chico (Seu Jorge), pois o chef de cozinha brasileiro torna-se o mentor do personagem principal, ensinando-lhe a importância das misturas e enlaces afetivos não somente dentro de panelas e na confecção de novos pratos, como também na intenção de evidenciar a Abe quais são os atributos necessários que um jovem cozinheiro deve ter.
A presença do Seu Jorge contribui e muito para a leveza da obra e o artista está bem no papel do sensível chef Chico. E o que dizer da interpretação de Noah Schnapp? Convincente. Em algumas cenas, o ator consegue transmitir toda a angústia e dúvidas de sua personagem através dos olhares trocados com as câmeras e outros atores em cena.
Agora, o ingrediente que deu aquele up na película foi sua trilha sonora construída com músicas de Tom Jobim (“Samba de uma nota só” e “Brigas nunca mais”), Zeca Veloso (“Todo Homem”), Carlinhos Brown (“Meia lua inteira”), Chiclete com Banana (“Capoeira Iarará”), entre outras.
No entanto, “Abe” peca em apresentar um roteiro ralo, com coadjuvantes com pouca profundidade, assim como conflitos mal resolvidos. A verdade é que faltou espessar todo esse caldo histórico e cultural para que o resultado obtido fosse mais complexo e passível de reflexões mais elaboradas por parte dos espectadores.
Apesar disso, eu gostei do filme! Ele é leve, divertido, destinado a toda a família e feito com o propósito de questionar o papel da comida e da cultura gastronômica no desenvolvimento de indivíduos globalizados e de uma sociedade. A película é mais uma tentativa de quebrar alguns preconceitos, tabus, costumes e crenças à mesa.

Beijos,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução