A sensação que eu tenho é o que o passado não nos abandona jamais! Por mais que nos esforcemos, vira e mexe ele se faz presente, batendo as nossas portas através de fatos verídicos ou de produtos ficcionais na intenção de lembrar-nos sobre caminhos históricos, culturais percorridos e uma realidade que ainda não foi digerida por completo.
A peça “Tectônicas” tem como pano de fundo os resquícios da cultura canavieira e retrata o comportamento e a postura adotados pelos herdeiros de senhores de engenho e de “coronéis” ainda existentes no interior do Brasil.
A obra também discute os vários tipos de violências existentes em nosso território, seja a social, a individual ou mesmo a política, bem como episódios racistas, de poder rural e autoritarismo familiar.
No centro da problemática está Jorge (André Garolli), latifundiário que deseja a todo custo expandir seus negócios e propriedades, além de aumentar os ganhos de sua empresa. O personagem não vê problemas em impor suas vontades e coagir vizinhos, empregados e até familiares para alcançar seus objetivos.
No entanto, no meio do seu caminho havia uma pedra, ou melhor, pessoas que discordavam de seus métodos pessoais como é o caso de Marcelo (Sidney Santiago Kuanza) e sua família de camponeses.
E apesar de Marcelo ser coadjuvante na história, ele é o personagem que cria ganchos para viradas na narrativa, pois é o namorado de Fabíola (Maria Laura Nogueira), filha de Jorge, e esteve preso durante um ano, acusado de feminicídio.
O interessante da peça é que ela faz uma analogia com a movimentação das placas tectônicas, colocando sob os holofotes outros dois personagens em cena. São eles: os geólogos Dolores (Sandra Corveloni) e Alfredo (Mauro Schames). Desde o início da obra, eles explicam o resultado do desencaixe de peças desse tabuleiro narrativo e que pode levar à ruína os planos do protagonista.
O mais pontual de todos é a chegada de Fabíola ao vilarejo exatamente no mesmo dia em que Marcelo sai da prisão, bem como o reencontro do casal após meses longe um do outro e a reafirmação do sentimento existente entre eles.
A partir desse momento, o corre-corre da dupla torna-se intenso porque eles têm a intenção de construir uma vida conjunta em outro país, mas para isso precisam tirar novos passaportes, comprar as passagens aéreas e encontrar um lugar para passar os primeiros tempos.
A boa notícia é que eles podem contar com a ajuda de Marli (Luciana Carnieli), mãe de Fabíola, e de Emílio (Heitor Goldflus), amigo de longa data da família. Apesar disso, há o embate final entre os machos alfas da história e muita roupa suja é lavada diante da plateia, culminando em erupções de tragédias passadas e revelando o surgimento de patologias físicas nos personagens.
Sem dúvida alguma, o melhor de “Tectônicas” é a atuação de seu elenco que consegue trazer para o palco toda carga dramática que a narrativa demanda. Além disso, a peça conta com participações especiais e projeções dos atores Alexandre Borges (Antenor) e Ademir Emboava (Nicão).
Outro ponto positivo é a cenografia da obra que facilita a imersão na história contada, pois é construída com objetos que remetem fazendas da época e usinas de açúcar com a réplica de uma chaminé no local, além de outros objetos cênicos que fazem referências a mise-en-scène de laboratórios científicos e ambientes de pesquisas com painéis eletrônicos, monitores e figurino típico.
Agora, sem dúvida alguma a intenção de “Tectônicas” é a de escancarar a faceta opressiva do patriarcado brasileiro, assim como mostrar as bases violentas em que a nossa sociedade foi construída, que muitas vezes ignoram a justiça institucional e colocam em debate a democracia e os direitos humanos.
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução
Serviço:

Onde: Teatro Sesi, localizado na Avenida Paulista, 1313.

Temporada: até 05 de dezembro de 2021.

Quando: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Preço: Grátis.

Opção para quem está longe de SP: assistir à peça através da página oficial do teatro ou pelo Youtube do Sesi