A verdade nua e crua é título de uma comédia romântica estrelado pela ator Gerard Butler e pela atriz Katherine Heigl, mas a expressão se encaixa perfeitamente no enredo do documentário “Absorvendo o tabu”.

O curta-metragem de 26 minutos de duração e ganhador do Oscar de 2019 na categoria explora a temática da menstruação. A verdade nua e crua é que na Índia nem 10% das mulheres utilizam absorventes higiênicos quando estão menstruadas. A maioria se vale de trapos e até de panos sujos para conter o fluxo sanguíneo, podendo desenvolver problemas de saúde, tais como: lesões nos órgãos reprodutivos, infecções no trato urinário, inflamações e outras complicações.

Agora, o mais chocante da obra é tomar ciência da ignorância popular, pois o assunto ainda é tabu localmente, especialmente entre os homens da zona rural de Dehli que associam o ciclo mensal as doenças femininas ou impurezas pessoais, pois quando menstruadas as indianas são consideradas sujas e não podem frequentar os templos religiosos.

Já entre as mulheres não há o costume de conversar sobre a temática, nem mesmo compreender a relação existente entre o funcionamento do corpo feminino com futuras gestações. Vez ou outra o assunto é abordado por professoras em sala de aula, causando constrangimento e surpresas nas alunas.

Agora, o mais triste de tudo é saber que algumas meninas e adolescentes abandonam seus estudos e as escolas diante das dificuldades enfrentadas mensalmente; isso em pleno século XXI.

No entanto, o interessante do filme é acompanhar as mudanças comportamentais da comunidade após a instalação de uma máquina de fabricação de absorventes descartáveis, bem como observar os reflexos dos esclarecimentos dados sobre o funcionamento do equipamento e sobre os empregos gerados a partir dela.

O segundo desafio enfrentado pelo grupo é em relação à venda do produto. Em um primeiro momento, elas chegam a oferecê-lo aos comerciantes, mas percebem suas resistências, então compreendem que a venda deve ser direta,

feita de mulher para mulher ou durante demonstrações realizadas nas escolas com a intenção de conquistar novas consumidoras e novas revendedoras.

A tecla batida pela equipe é a de que o uso de absorventes proporcionará autonomia, bem-estar e qualidade de vida as suas adeptas e que o investimento financeiro feito trará resultados positivos a médio e longo prazo.

A segunda verdade nua e crua que gostaria de conversar com vocês é que o Brasil não está muito distante do que foi retratado no curta produzido por estudantes americanos, não! Muitas brasileiras, como estudantes de baixa renda, mulheres em situação de rua e presidiárias também sofrem com a pobreza menstrual, ou seja, com a falta de acesso a recursos, itens de higiene, condições básicas de saneamento e conhecimento para cuidar de si durante o período menstrual.

Para vocês terem ideia do problema, uma em cada quatro adolescentes brasileiras falta às aulas por não possuir absorventes durante seu período menstrual e 50% delas nunca sequer falaram sobre o assunto em suas escolas.

E como se não bastasse esse cenário catastrófico, o Presidente da República vetou recentemente a distribuição gratuita de absorventes para estudantes de baixa renda, mulheres de situação de rua e encarceradas. Fala sério, né!?

Entidades do terceiro setor e lideranças políticas femininas estão se articulando para derrubar o veto ou, pelo menos, seguir o exemplo do Governo do Estado do Rio de Janeiro que distribuirá em caráter emergencial absorventes femininos para 326 mil estudantes da rede pública carioca.

A pobreza menstrual não é piada! E ela deve ser combatida com medidas sociais, com políticas públicas, com o envolvimento da sociedade, com a pulverização de informações sobre o assunto para a quebra de tabus ainda existentes e com a união das minas.

Se vocês têm condições de escolher entre opções sustentáveis, tais como: coletores menstruais, absorventes ecológicos, calcinhas reutilizáveis, absorventes orgânicos, saiba que são pessoas privilegiadas financeiramente, pois tantas outras Oxigenadas não possuem essas opções e lutam por proteção mínima com absorventes comuns.

Outra verdade nua e crua é que absorventes íntimos deveriam fazer parte de cestas básicas e estarem disponíveis em qualquer toalete, seja os escolares, em ONG´s, rodoviárias, aeroportos e estações de trem, além de museus, teatros, cinemas e tantos outros lugares abertos à circulação de mulheres que podem sangrar sem aviso prévio.

Eu indico o filme e a reflexão sobre a pauta.

Maria Oxigenada