De tanto ouvir a respeito do livro, eu não titubiei em comprá-lo e devorá-lo durante o último feriado prolongado. Confesso que me surpreendi com a narrativa, pois ela descreve o cotidiano familiar, além das atividades diárias de trabalhadores rurais, assim como exalta a cultura oral, a terra, a natureza, além de abordar o sincretismo religioso, o uso de ervas para o feitio de beberagens e unguentos e revelar personagens encantados, moradores de florestas e matas ou figuras presentes em culturas mestiças como é a nossa.
O romance saiu da mente do escritor Itamar Vieira Júnior e já abocanhou prêmios literários importantes, tais como: Jabuti, Oceanos, LeYa e o Faz Diferença, este último uma parceria entre a Firjan e o jornal O Globo. Prova de que a obra caiu nas graças de críticos, leitores costumeiros, mas também daqueles que estão debutando entre as palavras e em enredos mais robustos.
O fio condutor é a história de duas irmãs: Bibiana e Belonísia, especialmente a segunda que é a narradora da obra. O pontapé é dado quando elas ainda eram crianças, moradoras de Água Negra, fazenda da região da Chapada Diamantina, e após sofrerem um acidente doméstico que alterou os seus destinos.
Aos poucos, o leitor vai conhecendo o seu entorno e outros personagens são inseridos na narrativa, mas o destaque recai mesmo sobre figuras femininas. O autor não economiza na criatividade ao descrever cenários ou inseri-las em situações e episódios machistas, ora sendo vítimas, ora assumindo os papeis de espectadoras de violência doméstica, consequência do consumo excessivo de álcool.
O leitor também toma ciência da precariedade do local, onde as casas são feitas com paredes de barro, não dispõem de saneamento básico, nem da presença de energia elétrica e onde as pessoas que trabalham de sol a sol em propriedades privadas não desfrutam de um salário mensal, trocando seus esforços apenas por comida e morada. Vez ou outra conseguem alguns trocados com a venda de legumes e verduras em feiras livres de lugarejos próximos.
A herança escravocrata não foi deixada de lado e é uma realidade retratada nas páginas de “Torto Arado”, assim como a faceta do camponês pobre, as
desigualdades sociais, além das relações de servidão e o retrato de pessoas invisíveis para a maioria dos brasileiros, inclusive por nossas autoridades.
A educação, especialmente a desenvolvida no meio rural, é outro tema tratado na obra, pois ao mesmo tempo que a personagem Bibiana migra para a cidade e torna-se professora, sua irmã Belonísia abandona os estudos e não vê motivo para plantar livros.
Isso sem dizer nas injustiças sofridas e nos ranços acumulados por anos pelos afrodescendentes e quilombolas, pois resquícios da escravidão e da exploração de imigrantes também podem ser sentidos através das palavras e do discurso imagético proferido pelo autor.
Já em outros capítulos, é possível perceber a veia poética de Itamar e a delicadeza com que ele costura as cenas, mas no geral “Torto Arado” conta com uma linguagem crua, direta, sem floreios e até por esse motivo sua leitura é de fácil digestão.
Confesso que eu gostei da pegada de Itamar, especialmente porque ele não cria barrigas narrativas, o que favorece a fluidez da história. Outro ponto positivo é que ele retrata memórias, questões mal resolvidas, assim como aprofunda lembranças do modo de vida, do fazer e pulsar do sertão e cultura nordestina.
Indico também o seu segundo livro, intitulado “Doramar ou a Odisséia: Histórias”. Diferente de “Torto Arado”, este é um livro histórias independentes e crônicas que foram reunidas em uma única publicação com potencial para agradar aqueles de desejam ler durante pausas do trabalho ou intervalos de aulas.
E voltando na obra analisada, a boa notícia é que “Torto Arado” já foi traduzido para outras línguas e está sendo devorado por leitores mundo afora (Itália, Portugal, México, Peru, Eslováquia, Bulgária, Croácia, França, Alemanha, Estados Unidos) e os seus direitos também foram vendidos para o feitio de um futuro longa-metragem.
Agora, a dúvida que pairou em minha cabeça após o ponto final foi: será que os leitores urbanos pertencentes a países desenvolvidos compreendem os pormenores presentes em “Torto Arado” ou somente acham sua narrativa exótica, fantasiosa e desconectada da realidade vivenciada no século XXI?
Eu indico vocês se aventurarem pela história conflituosa dessas duas irmãs que cirandaram entre a poeira de terra levantada em uma fazenda localizada no interior nordestino.
Beijos,
Maria Oxigenada

Foto: reprodução