Louco pensar que o Brasil é um dos países que mais mata mulheres e que registros de casos de feminicídio, violência e estupro estão numa crescente. Mais louco ainda é saber que os números aumentaram durante a pandemia e que o desenvolvimento educacional e cultural local não acompanhou o desenvolvimento tecnológico e comunicacional desfrutado no momento.
Loucura também é transformar violência em arte, né!? Mas a história delirante de “Neste mundo louco, nesta noite brilhante” saiu da mente da roteirista Silvia Gomez que encontrou no Grupo 3 de Teatro a parceria ideal para contá-la.
A peça lançada em 2019 narra a história de uma jovem que é vítima de um estupro coletivo em uma estrada abandonada, exatamente no quilómetro 23 desta e a cena é observada pela vigia local, interpretada pela atriz e diretora Yara de Novaes.
No entanto, a profissional nada faz para interromper tal atrocidade, aproximando-se da vítima (Débora Falabella) somente após ela ser abandonada no asfalto e quando estava completamente fora da casinha e falando pelos cotovelos.
A interação entre as duas é difícil e elas discutem sobre a importância de superar o episódio, sobre os limites entre o físico e emocional, sobre a necessidade de procurar ajuda, sobre a relevância de seguir em frente, mesmo portando cicatrizes profundas e sobre os reflexos de uma sociedade patriarcal e machista como ainda é hoje a nossa.
O interessante é que o texto da peça conta com diálogos ácidos, realistas, mas também com passagens poéticas para ajudar na digestão do seu conteúdo. Slogan publicitários são usados com tal objetivo, bem como frases de autoajuda e uma trilha sonora construídas com músicas pop.
Outro ponto relevante é que o espectador acompanha não só o aquecimento das atrizes antes de entrar em cena, como também alguns ensaios de passagens importantes do roteiro e discussões do elenco sobre como melhor desenvolver cada uma das cenas.
Para vocês terem ideia do que estou dizendo, a dupla sob os holofotes desenvolve uma coreografia com varas de bambu nas mãos, além de soltar a voz inicialmente, desfiando algumas críticas pessoais e extravasando qualquer nervosismo que ainda estivesse pairando entre elas.
“Neste mundo louco, nesta noite brilhante” não é uma obra de fácil digestão, mas é uma ferramenta para a reflexão sobre a temática e sobre a importância do desenvolvimento da sororidade e da empatia entre as minas. Neste caso e em tantas outras situações, nós precisamos estender as mãos umas para outras e não cruzarmos os braços ou criarmos rixas, pois juntas somos mais!
Eu indico o espetáculo!
Maria Oxigenada

Serviço:
Onde ver: na página do Sesc São Paulo no Youtube.
Preço: Grátis.