A leitura do livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, já foi indicada neste espaço, mas agora eu estou sugerindo que vocês também assistam à peça homônima, encenada pelos integrantes da Evoé Companhia de Teatro, por ela estar mais atual do que nunca e retratar o cotidiano e as dificuldades enfrentadas por moradores de comunidades, bem como pessoas vulneráveis economicamente.
A obra é ambientada entre as décadas de 50 e 60, anos em que ninguém conhecia os dotes artísticos da protagonista da peça e ela era identificada por conhecidos apenas como uma simples lavadeira e catadora de papelões, além de moradora da favela do Canindé e mãe de três crianças.
E apesar da baixa escolaridade da personagem, ela nutria um amor pelas palavras, pelos livros e pela boa música. No entanto, toda essa cultura não a protegeu de entrar em contato com a violência policial, doméstica, ser inundada por fofocas locais ou enfrentar o maior de todos os perrengues que é a fome.
Em muitas ocasiões faltou o básico do básico como leite e pão aos filhos, mesmo assim Carolina preferiu recusar a ajuda financeira masculina e trilhar seu caminho sozinha. A personagem era uma mulher independente, forte, crítica da sociedade e da classe política da época.
O interessante da peça é que ela possui um recheio musical com números de samba e de rap, executados pelos atores sob os holofotes. Além disso, há um narrador presente em cena para alinhavar as passagens mais relevantes e criar gancho para a introdução das temáticas.
Na ocasião, o palco foi tomado por caixotes de madeira, por sapatos velhos, por trapos, papelões e dizeres na intenção de construir uma cenografia compatível com a história narrada.
Quanto ao figurino, tudo muito simples e criado a partir de peças de algodão como camisetas, vestidos e camisas, além de calças feitas de tecidos como o brim e a sarja. Calçados velhos e muitos pés descalços completam o visual dos atores.
“Quarto de Despejo” é uma obra protesto, pois a Evoé Companhia de Teatro utiliza-se da oportunidade dentro da caixa cênica para dar alguns recados aos espectadores, bem como para saudar esta escritora negra referência aos brasileiros e que já teve seus livros traduzidos para 13 idiomas e suas palavras e realidade lidas por milhares de pessoas.
Além da peça, eu também indico a exposição dedicada à Carolina Maria de Jesus que está em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS) e a leitura de outros três livros de sua autoria. São eles: “Casa de Alvenaria”, “Pedaços de Fome” e “Provérbios”.
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada

Serviço:
Onde ver a peça: através da página do Sesc São Paulo no YouTube.
Onde conferir a exposição em homenagem à escritora: no IMS, localizado na Avenida Paulista, 2424.
Horário de visitação da exposição: de terça a domingo, das 12h às 18h.
Preço: Grátis.
Até quando: 30 de janeiro de 2022.
Foto: reprodução