Se eu fosse descrever o meu último final de semana, vocês provavelmente concluiriam que o capítulo que o encerra contou com três partes distintas, pois o domingo foi repleto de reviravoltas e surpresas.
O dia começou preguiçoso, com o sol ainda bocejando e com a gente desfrutando de um café da manhã farto em um hotel fazenda do interior paulista. Na sequência, nós nos dividimos, pois meus avós foram caminhar na companhia de um monitor local. Já meus pais preferiram fazer uma aula de hidroginástica e eu e o Fê rumamos para a beira da represa de Jurumirim na intenção de queimarmos as calorias adquiridas na refeição remando através das águas paradas.
O esqueleto foi aquecido com um passeio em um caiaque duplo para somente depois trocarmos os remos e trabalharmos nossos abdomens, ombros, braços e pernas com a prática de stand-up. Xô pochete natural!
Eu não sei vocês, mas todas as vezes que eu faço exercícios na água minha fome aumenta, eu viro uma draga e caio de boca no que estiver em minha frente como se fosse a última refeição feita por um condenado à execução, há, há, há…
E foi exatamente durante o almoço que os ventos começaram a mudar, o céu se ressentiu e chorou mansinho. Na hora, meu oxigenado alerta foi acionado, pois fiquei preocupada com a possibilidade de atolarmos na estrada de chão batido que dava acesso ao hotel porque eu e o Fê viajamos com seu carro que distribui lambidas pelas vias públicas e não ostenta a altura de uma caminhonete ou modelo SUV.
A aventura ainda reservou momentos tensos, de pura adrenalina e com direito a friozinho na barriga; nada muito distante das sensações encontradas em esportes de aventura como a prática de saltos de bungee jumping, de tirolesa, rapel, rafting, escalada, entre outros, pois a verdade é que nós fomos de encontro com um temporal.
Horas de horror promovidas pelo parque Hopi Hari ou pelo mundo do Beto Carrero não chegam aos pés das nuvens carregadas, escuras e densas vistas na ocasião porque a verdade é que o cenário estava macabro! Imediatamente,
senti meu batimento cardíaco aumentar, meus olhos trincarem e gotas gélidas de suor escorrerem entre meus seios.
O pior é que eu não estava atrás da direção e completamente sem domínio do carro e sobre a velocidade praticada pelo Fê. Precisei assumir o posto de co-pilota da história, ajudando-o com a queima das faixas laterais, alertando sobre brecadas bruscas dos veículos à frente e sobre o que diziam as placas presentes no percurso. Foi tenso!
No entanto, aos poucos o céu foi suavizando seu semblante, equilibrando suas emoções, chegando até a rubescer a sua bochecha oeste durante o crepúsculo e permitindo a visualização dos últimos raios de sol entre os algodões queimados.
Imagem incrível!
Confesso que senti um alívio após o Fê estacionar seu carro diante de casa, mas meu corpo demorou mais alguns minutos para compreender a desaceleração, por isso eu precisei recorrer a um banho morno, além de um copo de suco de maracujá para convocar o sono e apaziguar as altas vibrações.
A sensação deixada pela aventura foi além das dores musculares provocadas pela sua retração e sim pelo reconhecimento da força e criatividade da natureza porque ela tem condições de construir viradas nas narrativas cotidianas, bem como tem imaginação fértil para alterar o desfecho de alguns dos personagens que compõem suas histórias, inclusive o nosso, né!?
Em segurança, eu fiquei refletindo sobre quantas vidas nós temos e se somos semelhantes aos gatos que ostentam sete, mas o que sei é que depois desse capítulo eu já queimei pelo menos três delas, há, há, há…
Então, que as outras quatro sejam vividas diluídas e não venham na forma de uma única enxurrada!

Maria Oxigenada
Foto: reprodução