Projetos sociais tem sim o poder de serem agentes transformadores de crianças e adolescentes órfãos, carentes ou residentes em comunidades, pois apresentam oportunidades esportivas e artísticas, além de sinalizarem novos caminhos de vida e acenderem esperanças a quem pouco tem e aspira.
O projeto carioca “Dançando para não dançar” é um desses e até hoje tem a missão de formar bailarinos para rodopiar mundo afora. E uma de suas alunas foi Ingrid Silva, hoje primeira bailarina do Dance Theatre of Harlem (USA).
No livro “A sapatilha que mudou meu mundo”, o leitor toma ciência sobre as primeiras posições feitas por Ingrid ainda em Benfica, bem como seu salto em direção ao Grupo Corpo e suas primeiras apresentações profissionais até sua tentativa para conseguir uma bolsa no exterior para estudar na companhia americana.
O primeiro ano em Nova Iorque não foi fácil para ela, pois a artista não falava fluentemente inglês, era imigrante, estava longe de sua família e amigos e, ainda por cima, havia dificuldades de comunicação pela ausência de ferramentas que há atualmente. Além disso, a grana era curta, apenas um auxílio financeiro vindo do Brasil para a sua alimentação, transporte e pequenos gastos.
A verdade é que Ingrid não teve alternativa a não ser se jogar com cara e coragem! Primeiro, durante os ensaios e aulas realizados no próprio estúdio do Dance Theatre of Harlem, depois trabalhando ora como garçonete, ora como professora de balé aos iniciantes da modalidade para completar sua renda.
Agora, o reforço na autoestima veio aos poucos e após ela perceber que havia outras dançarinas negras espalhadas pelo mundo e que possuíam o mesmo biotipo físico dela. No imaginário popular, um corpo bailante precisa ser magro, esguio, com membros finos, pescoços alongados, seios pequenos, sem músculos aparentes ou buzanfas avantajadas. Pode isso, Oxigenadas?
O perceptível durante a leitura é que conforme a personagem principal ganhava protagonismo, empoderando-se como mulher e bailarina, ela sentiu a necessidade de também assumir suas madeixas naturais, mas antes precisou passar pelo processo de transição capilar que todas as mulheres que possuem algum tipo de química nos fios se sujeitam.
O capítulo que coloca ponto final em “A sapatilha que mudou meu mundo” é um dos mais comoventes da obra, pois explica os motivos da adoção da cor rosa como modelo frequente para a modalidade (a cor rosa é a mais próxima da tonalidade da pele branca, ostentada pelas europeias, berço do balé) na intenção de construir uma imagem contínua do corpo, sem a interrupção do rosa.
Tanto Ingrid Silva como outras bailarinas que a precederam no Dance Theatre of Harlem aprenderam a pintar suas sapatilhas com bases líquidas de maquiagem. No entanto, a protagonista resolveu revolucionar o mercado da dança, propondo uma parceria, em 2018, com a Feed of London, fabricante de sapatilhas para diversificar a oferta de produtos, disponibilizando ao mercado sapatilhas em tonalidades próximas às peles negras e de afrodescendentes.
Outro fato interessante é que uma das sapatilhas pintadas por Ingrid virou peça de museu e está exposta no Museu Nacional de Arte Africana Smithsonian (USA), local que abriga parte da história vivida pelos negros americanos, que é referência mundial e de importância ímpar.
“A sapatilha que mudou meu mundo” é um livro de fácil leitura, muito próximo à um diário pessoal, e que pode ser degustado em uma única tarde de leitura. Dividido em capítulos, tais como: “Ela acreditou em mim”, “Será que consigo?”, “New York, New York”, “Racismo”, “A romantização da maternidade: gravidez e parto”, “O que é ser mãe hoje?”, “Querida Ingrid: uma carta para mim mesma”, entre outros.
O fato é que em todos há citações de pessoas importantes que contribuíram de alguma forma para o sucesso da personagem. Destaque para a chegada de sua filha Laura que veio ao mundo em plena pandemia, mudando algumas de suas prioridades e transformando-a em uma mãe consciente e disposta por lutar pela pluralidade de cores, corpos e gêneros.
Ingrid Silva não para e além de dar aulas, coreografar, se apresentar como primeira bailarina junto ao corpo de baile do Dance Theatre of Harlem, ela criou alguns anos atrás a plataforma EmpowHer New York, espaço de compartilhamento de histórias pessoais e oportunidades às mulheres. Já ano passado, a artista fundou junto com amigos o Black in Ballet com o objetivo de promover workshops, arrecadar fundos para instituições, disponibilizar bolsas de estudo em companhias profissionais, além de destacar bailarinos negros, compartilhando suas trajetórias, bem com servindo de biblioteca digital aos pesquisadores e artistas da área. Agora, seu maior sonho é organizar, futuramente, o maior festival de dança com bailarinos negros do mundo.
Por tudo o que foi descrito acima e pela trajetória bem-sucedida de Ingrid Silva, eu indico a leitura de sua biografia! Inspiradora!

Maria Oxigenada
P.S. A Royal Opera House de Londres está com uma exposição chamada “Pointe Shoe Window” (Vitrine das Sapatilhas de Ponta) que tem o intuito de ressignificar o calçado, transformando-o em obras de arte através da customização e de intervenções feitas por seis estilistas ingleses. Segundo registros históricos, a primeira sapatilha de ponta foi usada pela bailarina sueca Marie Taglioni, em 1831.
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