Agora é que são elas! Primeiro eu fiz aquele esquenta gostoso com vocês através dos textos “Dancer” e “Break Dance” na intenção de preparar seus corpichos e espíritos bailantes para a série documental “Move”, disponível na Netflix.
A obra engloba desde as danças de rua como outras tradicionais e contemporâneas, evidenciando os coreógrafos de diferentes nacionalidades que estão na boca do povão na atualidade, bem como os seus métodos de ensino ou de trabalho.
Ao todo, são cinco episódios distintos, mas o primeiro passo em direção ao conhecimento é dado pelas danças urbanas, especialmente o hip-hop praticado pelos dançarinos americanos Jon Bogz e Lil Buck. Neste capítulo é possível perceber que seus movimentos vão além de formas de expressão e são manifestos de resistência contra episódios racistas vistos recentemente, além de uma alternativa ritmada às interferências das gangues de rua, às diferenças sociais existentes e a falta de oportunidades aos jovens pobres.
No segundo episódio, o espectador viaja para Israel e junto do coreógrafo Ohad Naharin, da Batsheva Dance Company, para conhecer Gaga, método de ensino usado por ele que subverte as formas convencionais de dançar, testa os limites corpóreos, bem como liberta reflexos energéticos, apresentando coreografias soltas e não sincronizadas. Simplesmente incrível!
Já no terceiro encontro, quem está assistindo à série fica diante de Israel Galván, dançarino flamenco que rompeu com as tradições espanholas, apresentando ao mundo uma releitura da modalidade, assim como desafiando as normas de gênero existentes nesta até hoje.
Aqui, o interessante é observar não só a musicalidade presente no protagonista desde a infância, como também sua obstinação com os passos feitos e sua ousadia em extrapolar os limites impostos pelo flamenco tradicional, pelos seus pais na adolescência e pela sociedade, observando todos os obstáculos saltados pelo artista durante seu percurso profissional até alcançar os louros da fama e os aplausos de milhares de pessoas em apresentações feitas nas arenas destinadas às touradas, em Sevilha.
Agora, há uma identificação imediata nossa durante o quarto episódio da série “Move” porque este aterriza na Jamaica, junto à dançarina e feminista Kimiko Versatile que tem a missão de nos apresentar o dancehall, modalidade criada nas periferias das cidades, assim como o nosso funk, e que engloba passos de reggae, hip-hop e outros pertencentes ao street dance e que têm ênfase nos quadris, em movimentos sensuais e que remetem às heranças africanas.
E diferente dos bailes funks ocorridos nos morros e em comunidades brasileiras, as batalhas jamaicanas ocorrem nas ruas de chão batido e entre grupos de gêneros distintos, mas o bacana é que nessas ocasiões os movimentos de quadris feitos pelas mulheres não são replicados pelos homens devido ao machismo que ainda ronda a atividade.
Por fim, o quinto episódio acompanha o trabalho desenvolvido pelo dançarino e coreógrafo Akram Klan que desafia os limites entre a dança contemporânea e a dança indiana kathak. Há registros do processo criativo do artista, bem como os ensaios dos integrantes de sua companhia para o desenvolvimento do projeto “The Silent Burn Project”, criado para comemorar os 20 anos de existência do grupo. Infelizmente, as apresentações agendadas para acontecer em 2020 foram canceladas devido à pandemia, mas hoje é possível assistir aos novos trabalhos da companhia através de seu site e Youtube.
“Move” é uma série eclética e comprobatória de que é possível protestar, sensibilizar o outro e dizer muito através da dança e de movimentos corporais, pois dançar é uma arte que não precisa da emissão de sons e ruídos, mas da gestualidade e de performances singulares.
Confesso que eu já conhecia o trabalho feito por alguns dos coreógrafos e dançarinos como Akram Klan e Ohad Naharin que tive o privilégio de conferir durante o festival O Boticário na Dança anos atrás e que cheguei a comentar neste espaço com vocês. No entanto, é sempre bom acompanhar suas novas criações, performances, além de descobrir novos corpos dançantes e referências femininas como Kimiko Versatile.

Maria Oxigenada
Foto: reprodução