O sol estava fritando lá fora, mas eu não me importei de abandoná-lo em prol da realização de um programa cultural dentro do Theatro São Pedro, afinal de contas fazia 18 meses que não conferia um espetáculo de balé ao vivo.
Confesso que fiquei em estado de graça durante todo o tempo, desde o apagar das luzes, o avançar do programa executado pelo corpo de baile da São Paulo Companhia de Dança até o descer das cortinas.
“Infinitos Traçados” é um espetáculo criado durante a pandemia com a intenção de construir diálogos entre duas formas de expressão: a dança e a música. A obra contou com a colaboração de profissionais que se esforçaram em discutir sobre a formação da identidade latina e sobre os aspectos que une os mestiços, bem como os que os separam.
O uso de músicas de compositores, tais como: Heitor Villa Lobos, Camargo Guarnieri, Ginastera e Miguel del Águila combinadas com as coreografias realizadas pelos dançarinos entre fios e lâmpadas suspensas ajudaram na elaboração de uma narrativa que desenhou espaços, simulou divisões, rupturas e uniu emoções e vibrações diferentes.
Sob os holofotes, oito bailarinos da SPCD dançaram ora em duplas, ora conjuntamente, replicando movimentos pendulares, simulando deslocamentos de algumas espécies ou evidenciando as coreografias desenvolvidas pelos homens durante a aproximação humana. Em comum somente o figurino ostentado pelo grupo e que primava por peças simples como collants com decotes posicionados nas costas, além de calças flexíveis, meias e camisas; tudo em tonalidades escuras como o preto e o grafite.
O interessante é que os produtores não tiveram a intenção de criar efeito de continuidade ou construir uma estética infinita dos corpos dançantes em cena, pois os bailarinos quebraram suas imagens com o uso de sapatilhas nudes e não pretas.
Já o ritmo da apresentação foi dado por nove músicos pertencentes a Orquestra do Theatro São Pedro e pelo uso de um quarteto de cordas, além de instrumentos de sopro (flauta, clarineta e fagote) e o piano.
“Infinitos Traçados” é uma obra de 50 minutos de duração e sem intervalo, por isso retém a atenção dos espectadores através da dinâmica proposta em cada um de seus atos que contam com passos do universo clássico, bem como outros vistos em balés contemporâneos.
A mescla de dança e música sempre resultou em espetáculos interessantes, especialmente aqueles que têm a pretensão de espelhar quão ricos são esses amálgamas culturais.
“Infinitos Traçados” não ficará disponível virtualmente como acontece com outros espetáculos da SPCD, entretanto não percam a oportunidade de assisti-lo se o grupo de bailarinos riscar o chão de sua cidade no intuito de apresentá-lo presencialmente.
Eu gostei!

Maria Oxigenada
Foto e vídeo: reproduções