Ô lugarzinho que ninguém deseja estar! Nem de passagem ou apenas por alguns minutos visitando um familiar ou ente querido, né!? Agora, imaginem trabalhar em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) durante a pandemia? Loucura, loucura, loucura!
E é nesse lugar improvável que dois irmãos se reencontram após nove anos distantes um do outro. O pai do psiquiatra Richard Rosencrantz Guildenstern Jr (Darson Ribeiro) e do ator Roberto Rosencrantz Smith (Ken Kadow) está hospitalizado e gozando de seus últimos minutos de vida.
Na sala branca, fria e impessoal da UTI ambos duelam, ou melhor, vomitam ressentimentos, fazem acusações um ao outro, relembram passagens bem-humoradas da infância, além de discutir sobre preconceitos, especialmente o familiar, pois Roberto é homossexual e casado com um profissional do mercado financeiro americano.
Agora, os dois reconhecem que o pai não era lá um homem admirável, pois dentre tantas coisas feitas, ele batia na mãe da dupla antes de seu falecimento prematura, além de ignorar seu bem-estar e de seus filhos. Uma família disfuncional melhor dizendo e um casal com uma vida sem cores para ostentar.
No entanto, “A.M.O.R de U.T.I.” também discute através de diálogos nonsense a velhice e a amorosidade dos filhos em relação aos pais idosos, acamados ou partindo, bem como as nuances existentes no ofício do cuidar.
A cenografia da peça é construída com uma réplica de um quarto hospitalar preenchido com uma cama, aparelhos, fios, cortinas, além de uma iluminação feita com luzes brancas para potencializar ainda mais a frieza encontrada no ambiente.
O figurino ostentado pelos atores criado a partir de peças pasteis também segue na mesma linha, além de máscaras e protetores faciais potencializam as preocupações com contágios e transmissões de vírus no local, bem como nos lembram da necessidade de assepsia antes de adentrar ambientes como uma UTI.
Acredito que hoje isso não seja problema para nenhuma de nós porque aprendemos a importância da higienização das mãos com água e sabão, do uso frequente do álcool gel e de máscaras faciais no combate não só do coronavírus como na prevenção de outras doenças circulantes.
O espetáculo começa com o público ouvindo uma narração em off feita pela atriz Glória Pires, mas logo em seguida os personagens são introduzidos na história e os atores Darson Ribeiro e Ken Kadow começam o show interpretativo, pois há desde passagens dramáticas até outras descontraídas e alegres feitas pela dupla.
“A.M.O.R de U.T.I.” não é uma peça de fácil digestão! Ela exige dos espectadores disposição para sujeitar-se à reflexão e ao mergulho em questões demasiadamente humanas durante a aventura fictícia.
Por tudo isso e pela sincronia com o momento atual, eu a indico!
Maria Oxigenada
Serviço: Onde assistir: www.culturaemcasa.com.br
Preço: grátis