A pandemia acelerou o desenvolvimento de ferramentas que possibilitaram realizar reuniões virtuais e trocas através das telinhas, mas antes da criação do correio eletrônico a maneira como nós nos correspondíamos era através das cartas escritas à mão.
A peça “Minhas Queridas” trata exatamente das cartas trocadas entre a escritora Clarice Lispector e suas irmãs Elisa e Tânia. Durante 15 anos, as três se corresponderam frequentemente porque a escritora estava morando no exterior devido aos compromissos diplomáticos de Maury Gurgel Valente, seu marido.
E essas trocas de informações não eram tão rápidas e fáceis como acontecem hoje em dia, não! As cartas demoravam dias, semanas para atravessarem o oceano e alcançarem seus destinatários. Algumas vinham através dos malotes oficiais, enquanto outras seguiam pelos Correios.
O interessante é perceber quais eram as inquietações que atingiram Clarice entre seus 24 e 40 anos, desde suas dificuldades de adaptação em alguns países europeus, como seus questionamentos a respeito das responsabilidades exigidas de esposas de autoridades e suas reclamações sobre os longos períodos de solidão passados em lugares estranhos. Isso sem contar nos bloqueios criativos, na ânsia por exteriorizar as suas sombras através da escrita, além das lembranças dos pais falecidos e as saudades das irmãs e do estilo de vida carioca.
No palco, as atrizes Marilene Gama e Simone Evaristo, da Companhia de Teatro Diversão e Arte, têm a missão de fazer esse recorte pessoal e histórico da personagem, bem como trazer à tona o seu estado emocional, os seus altos e baixos, mas também suas alegrias com a publicação de seus livros e crônicas e a chegada de seus dois filhos: Pedro e Paulo.
E apesar da peça “Minhas Queridas” não avançar mais na trajetória da autora, é possível perceber que ela era uma mulher empoderada e dona de si já naquela época; tanto que se transformou em uma das escritoras mais importante, original e traduzida do século XX.
Clarice Lispector escreveu sobre laços familiares, afetos, angústias, medos e convenções sociais, mas também proporcionou aos seus leitores viagens introspectivas, indagações e experiências literárias de difícil digestão.
Quanto à apresentação virtual vista, eu gostei de como as confidências e desabafos escritos e trocados entre as irmãs foram expostos, pois as atrizes em cena costuraram ficcionalmente o conteúdo das cartas com as dificuldades enfrentadas por elas próprias para a montagem de uma peça teatral, além da adaptação do livro homônimo para os palcos e, principalmente, a compreensão da personagem retratada.
Ler, conversar e escutar sobre Clarice nunca é tarefa fácil! Dos leitores e espectadores são exigidas posturas flexíveis e abertas, pois muitas vezes é necessário a releitura de suas obras para o entendimento completo de suas aventuras.
Confesso que adorei “Minhas Queridas”, especialmente porque já tinha lido o livro que deu origem à peça teatral e porque Clarice Lispector é uma das minhas autoras preferidas e que sigo descobrindo-a e me identificando.
Eu indico.
Maria Oxigenada

Serviço:
Onde ver: através da página do Sesc no Youtube.
Preço: grátis.
Foto e vídeo: reproduções