A arquitetura fashion foi destaque no terceiro dia de desfiles em Paris, pois a marca Balenciaga apresentou 63 looks que fizeram jus à arte urbana com a presença de golas estruturadas, chapéus arredondados, ombros marcados, blazers e sobretudos enormes, além de vestidos tipo saco e produções jeans. Destaque para a noiva que encobriu o rosto atrás de um véu de trama fechada.
Já a construção feita pela grife Elie Saab utilizou-se de aplicações, bordados em pérolas e tecidos, além de rendas para criar looks com volume e texturas. As aplicações nos tules chamaram a atenção, assim como o casaco verde-água todo bordado com pérolas, além do vestido de noiva cravejado de detalhes, a série de vestidos vermelhos e as golas babadeiras que lembraram as ostentadas por Pierrôs de carnavais passados.
Ah! E não pensem vocês que ela foi a única marca a se valer dessa estética, não! A marca Viktor e Rolf também apostou suas fichas em golas e punhos extravagantes, em produções over criadas com mangas presunto, golas ombro a ombro, pelos falsos, laços enormes, pedras coloridas, maxi pérolas e coroas de todos os tipos numa ode à realeza do século XXI.
Já as princesas e príncipes da grife Jean Paul Gautier desfilaram com correntes pesadas, peças de prata, corseletes cravejados de tachas, coturnos e sapatos com solas grosseiras, além de produções com detalhes feitos com clipes de papel.
No entanto, o melhor do show de Gautier foi: segunda pele estampada com estrelas, dragões, pássaros e olhos, a série de jeans criada a partir de calças desmanchadas, os casacos de matelassê, os bordados dourados encontrados em casacos com estética militar, além das calças boca de sino, das saias armadas na parte traseira e das inconfundíveis camisetas listradas, referência à estética navy.
Aliás, os cinquenta tons de azuis encontrados nos oceanos foram muito bem representados no desfile de Rahul Mishra através de peças tie-dye, de paetês, das camadas de tules e babados numa alusão às águas vivas e rabos de sereias, mas o estilista também trabalhou na divulgação de uma paleta de cores quentes encontrada em cidades praianas que possuem vulcões em suas bases.
Já o estilista Charles de Vilmorin preferiu desenvolver uma coleção de duplo sentido, pois a primeira leitura feita é que ela foi inspirada no fim, na morte, na solidão e nos maus presságios porque abusou do preto, de peças assimétricas, além de optar por golas pontudas, por produções com recortes e looks com acabamentos feitos com penas numa associação rápida aos corvos que rondam os desertos. Em uma segunda leitura feita da coleção foi possível observar que o estilista também deixou uma mensagem esperançosa, de fertilidade e cura aos espectadores porque salpicou entre os takes áridos looks coloridos, tais como: biquini com cores primárias e a meia calça verde esmeralda.
Enquanto isso, a arquitetura criada pela grife Fendi Couture para a ocasião foi inspirada na cidade de Roma, por isso a presença de mosaicos de pedrarias em uma referência às ruínas locais, além de drapeados, bordados, do uso de jacquard e tecidos que lembravam as manchas naturais encontradas em pedras de mármore e a presença de botas e sapatos com saltos imitando arcos de outros monumentos históricos.
E a marca Maurizio Galante? Essa contrastou as escadas de um prédio moderno com tubulações aparentes, vitrais quadrados adornados e linhas retas com o trabalho feito nos tecidos que ostentavam dobras, pregas, curvas de fitas de cetim à la Oscar Niemeyer e a artista plástica Tomie Ohtake.
Agora, a Maison Margiela arquitetou um tipo de apresentação muito mais macabra, pois desenvolveu um filme de terror sobre como nossas rotinas foram viradas de cabeça para baixo durante a pandemia, além de ressaltar a força da natureza e a nossa insignificância perante ela, por isso reutilizou materiais, tecidos e peças encontradas em brechós, assim como evidenciou forros e avessos e esgarçou algumas peças. Destaque para o vestido de cacos de espelho usado sobre uma camiseta branca puída.
A Semana de Moda de Paris deixou bem claro que a única coisa que não foi desgastada durante esses 16 meses de pandemia foi a criatividade dos estilistas porque eles surpreenderam com suas invencionices, com suas combinações e com o desenho de suas novas coleções.

Maria Oxigenada
Foto e vídeos: reproduções