E lá vamos nós! Longe do burburinho do backstage, mas próximo às novidades e tendências para as próximas estações, a São Paulo Fashion Week aconteceu virtualmente e o grande barato disso é que os estilistas puderam melhor trabalhar suas coleções e seus fashion filmes.
O line-up da edição contou com 41 marcas distintas, sendo que sete delas (Anacê, Ronaldo Silvestre, Soul Básico, Victor da Justa, Weider Silveiro, Rocio Canvas e Esfer) fizeram seu debut no evento. Além disso, oito outras marcas (Ateliê Mão de Mãe, Az Marias, Meninos Rei, Mile Lab, Naya Violeta, Santa Resiliência, Silvério e Ta Estúdios) foram acolhidas através do coletivo Sankofa, plataforma que tem Pretos na Moda e a startup VAMO no seu portfólio.
O evento foi aberto com a apresentação on-line de Ronaldo Fraga, intitulada “Terra de Gigantes”. O estilista voltou o seu olhar para a cultura cearense, para a aridez da região, para o artesanato encontrado em Juazeiro, para a religiosidade local representada pela figura de padre Cícero e para festas populares.
Daí foi um festival de cores e texturas que nós tanto apreciamos com a presença de peças feitas em linho, bordados aplicados, tricôs coloridos, fitas, patchwork, além de vestidos soltos, outros simulando as batinas de padres, hot pants cavadas e com réplicas de cintos de castidade e acessórios no formato de corações e cruzes, além de sandálias arrasta pé.
O sagrado, a percepção do eu e a reflexão sobre a extração de belezas cotidianas também nortearam os shows das marcas Lilly Sarti e Aluf. A primeira revisitou o universo esotérico através da construção de peças úteis e ideais ao dia-a-dia pandêmico. No entanto, ela apostou em bordados de alfaiataria, em punhos com barras, em jabôs e babados, em crochês feitos à mão, em hot pants cavadonas, em minissaias leves e nos shorts.
Não muito diferente a Aluf jogou os holofotes para a silhueta simplista, para o uso de flats, para as golas altas, para os punhos pregueados, para os drapês, para as bolsas feitas de contas e para as tonalidades claras.
Samuel Cirnansk voltou à SPFW com uma coleção vaporosa que também absorveu o brilho das pedras, a estética dos drapeados e bordados, além de pepluns, bustiês transparentes e tonalidades alegres como o rosa. Destaque para o vestido de noiva visto com cauda longa e colarinho fechado.
Na contramão disso tudo, teve a apresentação da label ÀLG que foi realizada em uma quadra poliesportiva e com a presença de dois mascotes na arquibancada torcendo pelo sucesso da marca. O basquete foi o universo explorado, por isso muitos moletons encapuzados, estampas camufladas, calças usadas por baixo de shorts soltos, macacões jeans, sandálias de dedo masculina, tênis zebrados e mochilas e bolsas xadrezadas.
A estreante Anacê também virou o seu pescoço para o mundo esportivo, mas para um esporte um pouco mais elitista como a esgrima, trazendo para frente das câmeras bodies e corpetes com cortes semelhantes aos uniformes da modalidade, calças ajustadas e capas inspiradas em heróis de outrora que também impunham espadas. Apesar disso, a grife mostrou outro lado do seu processo criativo com versões de pantalonas, mangas bufantes, calças em couro e golas de padre.
Já o segundo dia de evento começou com a coleção “Maritime”, de Igor Dadona. O estilista mostrou os altos e baixos que ele passou nessa pandemia através do navegar de um barquinho de papel, da presença de looks com carinha de dobraduras e de poás enormes, xadrezes, maxi-tricôs, estampas florais e galochas.
Na sequência, Ronaldo Silvestre conspirou a favor de macacões, especialmente de pantacourt e balonê, vestidos finos com transparências, produções denim e com aplicações de flores. Outra marca que trabalhou com os macacões foi a Modem Studio com suas versões encorpadas.
Agora, a marca Isabela Capeto apostou nos elementos botânicos, desenvolvendo uma coleção inspirada nas PANC´s (plantas alimentícias não convencionais), tais como: peixinho, ora-pro-nóbis, taioba, vinagreira, jambu e que são as queridinhas do momento de chefs de cozinha. E como a estilista Fabiana Milazzo, Isabela também viu beleza nas frutas tropicais e em suas cores sólidas. Foi uma delícia acompanhar seu filme e o desfile de modelos a bordo de
saias rodadas com frutas bordadas ou estampadas, conjuntos com detalhes em miçangas, jeans com folhagens pintadas à mão, peças xadrezadas com frutas estampadas numa alusão aos piqueniques, além de golas de crochê colorido feito à mão, brincos imitando cachos de uva e óculos redondos, coloridos; tudo muito tropicalista!
E foi na vibração das tonalidades calientes e na personalidade forte da pintora Frida Kahlo que a marca Triya plantou sua coleção. Maiôs, biquinis, croppeds, sunquínis, vestidos vaporosos, túnicas e cangas estamparam flores, animais selvagens, folhagens e o rosto da artista, pulverizando poesia e amor pelo ar.
A autenticidade ao se vestir e se apresentar também foi a pegada da grife Another Place com a coleção “Unlock”. Composta de peças em couro e vinil coloridas, vestidos grudados ao corpo, puffer jackets, segundas peles, muito preto e verde e acessórios como pingentes de chaves; tudo na esperança de abrir as portas definitivamente para a nossa liberdade e circulação.
E o baile da SPFW continuou por mais alguns dias…

Maria Oxigenada
Foto e vídeos: reproduções