“Todo mundo gosta de acarajé,
O trabalho que dá pra fazer que é,
Todo mundo gosta de acarajé,
Todo mundo gosta de abará,
Ninguém sabe o trabalho que dá”…
A estrofe da música “A preta do Acarajé”, de Dorival Caymmi, é o abre perfeito para introduzir o tema do ofício das baianas que é um dos patrimônios históricos do Brasil, reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e que, vira e mexe, ganha os holofotes através de documentários, livros de gastronomia, narrativas ficcionais e webséries como a “Iê Acarajé”, produzida pela Casa MAR, hub baiano de cultura, influência e tecnologias criativas.
A série virtual conta com quatro episódios distintos e cinco personagens diferentes que falam sobre a paixão e as responsabilidades exigidas pela profissão, bem como sobre os novos desafios enfrentados com a pandemia, pois as baianas tiveram que se reinventar durante o período com a queda do turismo em Salvador e a diminuição da circulação de pessoas.
O primeiro episódio aborda o ofício como uma herança familiar, passada de geração para geração e tem Elaine como protagonista da história. Apesar de ter formação educacional superior, a personagem resolve assumir o tabuleiro de sua mãe Dinha, uma das baianas mais famosas de Salvador, mantendo-o aquecido na região do Rio Vermelho.
Já o segundo capítulo da websérie recebeu o título de “Parece casa, mas é um lar: família Miranda”, pois tem Diva como narradora de sua própria história. Ela conta que o ofício envolve 15 mulheres de sua família e que elas possuem oito tabuleiros distintos espalhados pela orla da praia, na região do Porto da Barra.
O terceiro encontro regado a muito dendê é com Taty, baiana que começou vendendo acarajé na porta de sua casa e hoje atende pedidos de delivery, suprindo a vontade de sua vizinhança de degustar a delícia típica da culinária nordestina.
O fechamento do projeto é feito com Marluce, protagonista do episódio “Eu não sou daqui, minha gente!”, pois a personagem revela que é pernambucana e que chegou à Salvador atraída pelos cheiros e sabores que percorrem suas ladeiras, bem como pelo Candomblé.
Para quem desconhece, o bolinho de acarajé é comida de orixá e uma oferenda feita para Iansâ nos terreiros. Além de ser um prato simbólico, ele também carrega consigo contribuições da culinária africana e de como as mulheres de outrora recorriam a sua comercialização para comprar cartas de alforria para seus filhos, maridos e parentes.
O mais interessante da série on-line é ouvir as histórias dessas mulheres e tomar consciência sobre os sabores e dissabores do ofício de baiana do Acarajé, pois como diz a letra da música citada acima, turistas e clientes desconhecem as atividades que antecedem o tabuleiro e o contato pessoal, pois elas começam cedinho com a compra diária dos ingredientes, o feitio da massa de feijão fradinho e dos acompanhamentos, assim como a construção do personagem visto com a colocação da vestimenta tradicional com várias saias rodadas, turbantes, colares de conta, o feitio do make e a abertura do sorrisão.
“Iê Acarajé” foi escrito por Filipe Volz, dirigido por Mariana Jasper, tem fotografia de Lucas Raion, trilha sonora da Duo B.A.V.I. e produção de Gordo Calasans, mas teve outros profissionais envolvidos na finalização do projeto cinematográfico.
Vale a pena assistir à websérie por vários motivos. São eles: para saber que o trabalho das baianas é considerado um dos trabalhos femininos mais antigo praticado no país, para tomar ciência de toda a história cultural que ele carrega consigo e para que nós, brasileiros, o valorizemos e nos orgulhemos de sua perpetuação através de gerações.
Não preciso nem dizer que eu amei a série e a indico para quem deseja salpicar um pouco de axé no seu dia!
Maria Oxigenada

Onde assistir: através das mídias sociais da Casa MAR como no Instagram @casamar.art
Foto e video: reproduções