2021 é o ano! Ano da vacinação contra o Covid, ano da realização das Olimpíadas no Japão, ano em que as pessoas estão voltando a circular normalmente e ano das comemorações do centenário da estilista Zuzu Angel.
O Itaú Cultural lançou uma exposição virtual em homenagem a ela, onde é possível fazer um tour on-line pela mesma ocupação lançada em 2014, além de observar peças e criações em 360 graus e saber um pouco mais a seu respeito através da entrevista feita com sua filha Hildegard Angel, do instituto que carrega o seu nome, assim como sobre as novas biografias escritas de Zuzu.
Quem é fashionista e tem o hábito de acompanhar aos desfiles das semanas de moda já deve ter ouvido falar seu nome, pois Zuzu Angel foi a primeira estilista a desenvolver uma moda com engajamento político e a protestar através de sua costura, pois seu filho primogênito Stuart Angel foi assassinado por militares no início da década de 70 e durante a Ditadura Militar. O motivo de tal atrocidade é que ele era uma das lideranças do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8).
No entanto, Zuzu também trafegou por outros caminhos ao longo de sua carreira e estes foram mais solares. Por essa razão ela é considerada uma artista tropicalista e uma profissional que fez questão de ressaltar as belezas naturais do Brasil como sua flora, fauna, cores, pedras preciosas, rendas, bem como as peculiaridades das culturais regionais como a nordestina, a mineira e a carioca.
Coube a ela apresentar ao mundo nossas riquezas, assim como algumas de nossas mesclas e personagens do folclore brasileiro como Maria Bonita e Lampião. Na verdade, ela vestiu mulheres da alta sociedade, celebridades e artistas brasileiras e internacionais como a cantora e atriz americana Liza Minelli, a ex-primeira dama Sara Kubitschek, a cantora Bibi Ferreira, entre outras.
Vanguardista, Zuzu ajudou no desenvolvimento do polybel (misto de algodão com poliéster), mas ela gostava mesmo era de passar a tesoura em algodões crus, sedas naturais, organzas, lamês; tudo para o feitio de caftas, turbantes, vestidos, conjuntos, shorts com sobressaias, xales franjados e outras peças atemporais que valorizavam as curvas femininas. O composê (uso do opaco com a transparência) e o patchwork também marcaram presença nas coleções da estilista.
No entanto, foi na estamparia e no bordado que sua moda ganhou alegria, pois a artista não gostava de produções monocromáticas ou em P&B e preferia vestir suas modelos e cobrir suas clientes com tecidos com prints de andorinhas, papagaios, tucanos, flores, anjos, ou ainda, com bordados coloridos ou que tivessem referências ao aconchego doméstico. Destaque para o vestido protesto com vários bordados espalhados por toda a sua superfície como tanque de guerra, soldado armado, avião militar, anjos, sol encarcerado na intenção de criar uma narrativa particular e lembrar os profissionais de imprensa sobre o desfecho trágico de seu filho.
O estilista Ronaldo Fraga já homenageou a estilista em duas ocasiões distintas, a primeira foi durante a semana de moda paulistana (SPFW) em 2001 com o desfile intitulado “Quem matou Zuzu?” e a segunda foi no ano passado quando ele fez um fashion filme para a edição do mesmo evento, onde recebia e conversava sobre a pandemia e a situação atual do Brasil com a alma da própria.
Zuzu Angel faleceu em 1976 na estrada da Gávea e quando retornava para sua casa de uma festa. Hoje, sabe-se que sua morte não foi acidental, que ela não estava alcoolizada na ocasião e que foi vítima de um atentado cometido por agentes da repressão.
Maneira ríspida de arrematar a trajetória profissional e de uma mãe que só queria enterrar o corpo de seu filho e que usou o seu ofício de forma sutil, mas como forma de desfiar ao mundo toda a sua revolta, desespero e inconformismo contra a violência e as atrocidades praticadas pelas autoridades durante o período de ditadura.
E por mais incrível que isso possa parecer a moda de Zuzu Angel continua viva, assim como sua persona porque elementos e detalhes encontrados em suas criações continuam sendo vistos em trabalhos desenvolvidos por outros estilistas e marcas, tais como: Christian Lacroix, Emannuelle Junqueira, na moda praia feita por Lenny Niemeyer ou na coleção brasileiríssima “Frutos da Terra” desenvolvida recentemente por Fabiana Milazzo e que também foi comentada neste espaço.
Para quem quer aprofundar seus conhecimentos em história da moda, eu indico ater-se ao capítulo dedicado a Zuzu Angel e a tudo o que ela fez em prol do Brasil e do mercado fashion. Uma verdadeira revolucionária da moda!
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada
Foto e vídeo: reproduções