A pandemia agravou a fome no país e a maioria das famílias brasileiras estão com dificuldades em colocar comida no prato, especialmente agora que o valor do auxílio emergencial diminuiu ou foi cortado por completo e milhões de pessoas estão sentindo o gosto amargo da fome, do desemprego, além de dificuldades para voltar ao mercado de trabalho e a falta de respaldo governamental.
Já faz um tempo que as lembranças não só do trabalho desenvolvido pelo sociólogo Betinho (Herbert de Souza), como também de sua figura magra com olhos azuis arregalados tem me rondado a cabeça e não é difícil de imaginar o motivo disso e de perguntar sobre o que ele faria hoje para silenciar as barrigas roncantes?
Desde ano passado, não só a sociedade civil como empresários, artistas, chefs de cozinha e cozinheiros têm colaborado bastante com doações de alimentos, distribuição de cestas básicas, quentinhas, bem como tem intensificado o fornecimento de refeições baratas como é o caso do Bom Prato, programa do Governo do Estado de São Paulo, que oferece três refeições diárias a população carente e vulnerável financeiramente a um valor irrisório. Para vocês terem ideia o café da manhã sai por R$ 0,50 e o prato de comida custa R$ 1,00 cada, mas todos esses esforços não são suficientes!
A mendicância cresceu exponencialmente, especialmente em portas e saídas de supermercados, shoppings, farmácias e padarias. São famílias inteiras implorando não só por comida, mas também por produtos de higiene pessoal como fraldas descartáveis, absorventes femininos, além de remédios e máscaras.
A realidade é dura! E ela está materializada cada vez mais diante de nossos olhos. Outro dia mesmo, minha mãe me pediu para eu ir ao supermercado do bairro comprar alguns itens que estavam faltando em casa e ao chegar ao local eu fui abordada por uma criança.
O problema é que ela não estava sozinha e quatro outros membros de sua família estavam flanando dentro do supermercado e cercando os clientes. Confesso que me assustei com o comportamento deles que, no geral, costuma ser passivo, entretanto eles me encurralaram entre os corredores e um deles tentou agarrar um dos meus braços.
Isso só não aconteceu porque num reflexo eu retrocedi alguns centímetros e pedi passagem a todos, mas meu coração veio na boca e eu me apavorei com a cena! Honestamente, achei que seria agredida no lugar mais improvável do mundo e em plena luz do dia. Preconceito meu, é claro!
No entanto, eu acabei abandonando a aventura e o carrinho de compras. Na saída, eu cruzei com a gerente, contei para ela o que tinha acabado de acontecer e ela me disse que tentou persuadir a família várias vezes, mas eles disseram a ela que a mendicância era o emprego de todos e que essa era a forma mais fácil de conseguirem o que precisam no dia-a-dia.
No caminho de volta, refleti a respeito do ocorrido, agradeci pelas minhas refeições e pratos cheios, pedi perdão pelo julgamento feito, mas também me entristeci com o pensamento e o comodismo dos pedintes, pois segundo o discurso feito está bom do jeito que está e eles não têm a intenção de mudar suas rotinas, buscar por trabalhos, mesmo que pontuais e, muito menos, sonhar com um futuro ativo e melhor. Nada disso!
Em minha memória surgiu a estrofe da música “Deixa a vida me levar”, de Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, e que diz:
“Ao destino que Deus me deu,
Se não tenho tudo que preciso,
Com o que tenho, vivo
De mansinho lá vou eu”…
O pior é que não são somente eles que estão nessa vibe de nem, nem e nem, ou seja, são milhares de pessoas que não trabalham, não estudam e não procuram empregos formais e o sopão que sustenta a economia nacional está cada vez mais ralo e menos oxigenado. Difícil, hein!?
A boa notícia é que a chama da esperança não foi apagada por completo e ainda há uma brasa solidária necessária para acender novamente à vontade e o querer de outras tantas famílias que estão dispostas em ajudar o próximo e alimentá-lo emocional e fisicamente.
A pandemia não acabou! E a fome só aumentou! O tempo atual continua sendo de acolhimento e para buscarmos conjuntamente por milagres silenciosos que não pedem por holofotes e sim pela união de forças. Compartilhe, doe e faça sua parte!
Eu resolvi a questão através do feitio de doações para a Gastromotiva, cozinha solidária que combate à fome e ajuda a capacitar pessoas para o trabalho desenvolvido em cozinhas, além de conscientizá-las sobre o desperdício de alimentos, pois este continua alarmante e a cada três frutas colhidas, uma vai para o lixo.
Não faz sentido algum desperdiçar comida se temos 28 milhões de pessoas passando fome no Brasil, né!?
Maria Oxigenada

Dica de leitura: “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus.
Foto: reproduções