A peça “Pequeno inventário de impropriedades” trata da relação do homem com a violência, mas não qualquer violência e sim aquela gratuita e que não faz sentido algum. Exemplos deste tipo de violência nós temos de baciada, basta entrar em sites de notícias ou assistir aos telejornais diários, como o ataque à creche em Saudades (SC) realizado por um adolescente portando uma espada e que deixou cinco mortos, sendo três crianças menores de dois anos ou o ataque com arma de fogo ocorrido na semana passada em Kasan (Rússia) que vitimou sete crianças e deixou outras 20 pessoas feridas.
O interessante do espetáculo é que ele conta com uma temática atual, apesar de ter sido escrita anos atrás, e que nos faz refletir a respeito da qualidade da saúde mental da população, do desequilíbrio emocional das pessoas no momento e de como a rotina imposta em grandes centros sem escapes ou lazer, além do consumo excessivo de tecnologia, a escassez de contato pessoal, a presença de problemas sócio-econômicos, a precariedade educacional, entre outros problemas existentes podem potencializar a agressividade, o surgimento de doenças mentais, fantasias e questionamentos a respeito do que é ser uma pessoa bem sucedida, querida ou feliz hoje.
Outro ponto que fica evidente na narrativa é a importância para o personagem de marcar sua passagem nesta vida, mesmo que seja através da violência praticada ou a sua indagação sobre as lembranças armazenadas de outras pessoas em relação a episódios sangrentos.
Para engrossar o caldo da narrativa, o protagonista começa o espetáculo descrevendo suas atividades corriqueiras, desde o momento em que se levanta, escova os dentes, toma seu café da manhã até quando ele retorna do trabalho no final do dia.
Fazer um link com a música “Cotidiano”, de Chico Buarque, é inevitável, especialmente porque o autor descreve cenas parecidas em suas estrofes.
“Todo dia ela faz tudo sempre igual,
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual,
E me beija com a boca de hortelã,

Todo dia eu penso em poder parar,
Meio-dia eu só penso em dizer não,
Depois penso na vida pra levar,
E me calo com a boca de feijão”…
Tanto em uma obra como na outra, a falta de perspectivas futuras norteia o personagem, entretanto na peça o desejo intrínseco do protagonista de propagar e compartilhar dores é uma realidade, assim como seu desejo em observar o comportamento humano diante de tragédias pessoais.
De passagem, “Pequeno inventário de impropriedades” também aborda a temática de como identificar uma pessoa saudável, pois apesar de algumas adotarem uma alimentação balanceada, além de bons modos à mesa e perante os outros, isso não quer dizer que elas batam no bumbo, sejam saudáveis e não precisem de ajuda especializada, do uso de medicamentos ou sessões de terapia contra doenças, tais como: depressão, ansiedade, síndrome do pânico, entre outras.
O ator, roteirista e diretor Max Reinert tem a missão solitária de contar diante dos holofotes essa história de selvageria, dor e drama, entretanto para torná-la mais digerível ele usa pitadas de sarcasmo e ironia na costura dessa narrativa não linear e vale-se também de uma interpretação intensa e ágil.
Quanto à cenografia da obra, ela foi construída com a presença de poucos objetos cênicos, tais como: uma lousa, cama, geladeira velha, cadeira em um espaço que aparentava ser um cômodo de uma casa ou uma garagem adaptada para a encenação virtual.
“Pequeno inventário de impropriedades” é uma peça ganhadora de vários prêmios em festivais nacionais de teatro, inclusive o de melhor texto original. Além disso, o espetáculo já caiu na estrada, percorreu várias cidades e Estados brasileiros e agora está disponível gratuitamente pelo canal do Sesc no Youtube.
E o grande barato da obra é ter sensibilidade para perceber como o universo ficcional está misturado com o real e como está cada vez mais difícil distinguir onde começa um e termina o outro.
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada
Foto e vídeo: reproduções