Foi preciso o filme “Bela Vingança” ganhar o Oscar de melhor roteiro original deste ano para que nós refletíssemos a respeito da cultura do estupro e ela é mais comum do que a gente imagina; resultado de uma herança machista, de sociedades permissivas, de cúmplices e da necessidade que os homens possuem de reafirmar sua masculinidade e presença diante das mulheres.
Com uma história sagaz, ousada, a roteirista e diretora do longa-metragem Emerald Fennell desenvolve a temática de uma maneira criativa e nada óbvia, pois evidencia agressões e abusos sexuais que ocorrem em ambientes estudantis, realizados por pessoas abastadas e por “caras legais” e não somente por boys lixo em becos escuros e na calada da noite.
Como pano de fundo, o espectador toma ciência a respeito do estupro coletivo sofrido pela estudante de medicina Nina, mas a protagonista da obra é a sua melhor amiga chamada Cassie (Carey Mulligan) que desde o ocorrido está com sangue nos olhos e disposta a colocar a homarada no seu devido lugar. Como?
Semanalmente, a personagem finge estar passada de tão bêbada em baladas e bares de sua cidade e o interessante é que nessas ocasiões sempre aparece um “anjo da guarda” querendo ajudá-la a voltar para casa em segurança, mas na maioria das vezes eles mudam o itinerário, a levam para suas residências, forçam a barra e tentam fazer sexo sem consentimento com Cassey. A justificativa para tal atrocidade é que ela estava pedindo por isso, através de seu comportamento e do uso de roupas inapropriadas e provocantes.
Agora, o que os bonitos não sabem é que ela está completamente sã, lúcida e esperando para desmascará-los quando estiverem com a mão na botija, se é que vocês me entendem! O fato é que depois que as máscaras caem, eles continuam entoando o mantra de que são caras legais!
Sei! Me engana que eu gosto!
Paralelamente a realização de sua vingança, o espectador fica sabendo que Cassie é uma mulher que acaba de completar 30 anos, que trabalha como atendente na cafeteria da Gail (Laverne Cox) e que depois do episódio envolvendo Nina, ela largou a faculdade de medicina, voltou para a casa dos pais, vive sem perspectivas de melhoras futuras e ainda assombrada pelo passado.
As coisas começam a mudar depois que ela reencontra com um colega e crush de faculdade. Seu nome é Ryan (Bo Burnham) e atualmente ele é um médico pediatra bem-sucedido e sonho de consumo de muitas mulheres.
O problema é que com ele vieram as lembranças, especialmente as más de pessoas pertencentes ao mesmo círculo social, como a reitora da faculdade que colocou panos quentes no ocorrido com Nina, além do advogado de defesa do abusador, de Jerry (Adam Brody), o acusado pelo crime e outros colegas de classe que se omitiram no socorro da vítima e durante o julgamento.
O legal é que o roteiro foi construído com várias viradas na narrativa, especialmente nos seus últimos 30 minutos, apresentando um final brutal e inimaginável, mas totalmente coerente com o título da obra. Além disso, “Bela Vingança” conta com cenas fofas e que remetem às comédias românticas da década de 90. Destaque para a cena ocorrida dentro da farmácia e protagonizada pelo casal principal.
A história possui outros pontos fortes, tais como: a atuação da atriz Carrey Mulligan que, aliás, está ótima no papel! Esta foi construída envolta em uma aura de mistério, mas também com gestos delicados, atitudes frias e mesclas de características encontradas em sociopatas.
Outro ponto positivo é a fotografia do filme criada a partir da uma paleta de cores doces e que induzem o espectador a acreditar que Cassie é uma pessoa de boa fé ou justiceira no momento. Destaque também para a cenografia da película que foi construída com objetos over importados da década 90 (como visto na casa dos pais de Cassie) ou com móveis moderninhos e valorizados pelos millennials (café da Gail).
A trilha sonora da película composta com músicas feitas por mulheres e do naipe de: “It´s raining man”, de The Weather Girls, “Stars are blind”, de Paris Hilton, “Toxic”, de Britney Spears, “Angel of the morning”, de Juice Newton, “Drinks”, de Cyn, “He hit me”, de Carmen DeLeon, “Last laugh”, de Fletcher, “Boys”, de Charli XCX, “Selenas”, de Maya B, entre outras reafirma a sororidade da obra.
A verdade é que “Bela Vingança” pode trazer alguns desconfortos para os machões que o assistirem porque o filme escancara a má conduta masculina, desde a emissão de palavras de baixo calão até agressões físicas e torturas psicológicas praticadas contra as mulheres por todos os tipos de homens há um longo tempo.
Abram os olhos, Oxigenadas! E não baixem a guarda diante de lobos na pele de cordeiros! E acabem com a rivalidade feminina, estendam as mãos para outras mulheres que estiverem em situações vulneráveis e precisando de ajuda em festas, baladas e bares, mesmo que elas sejam pessoas desconhecidas, pois juntas somos mais fortes e temos condições de evitarmos traumas e tragédias como a retratada na película!
Eu amei o filme!

Maria Oxigenada
Foto e vídeo: reproduções