O filme “O som do silêncio” foi indicado a seis categorias diferentes no Oscar 2021. Dentre elas estão: melhor filme, melhor ator (Riz Ahmed), melhor ator coadjuvante (Paul Raci), melhor roteiro original, melhor montagem e melhor som.
E é na ausência de ruídos e sons que a obra se constrói, pois o protagonista chamado Ruben Stone (Riz Ahmed) descobre logo nos primeiros minutos da película que está perdendo sua audição. O problema é que ele é baterista de uma banda de heavy metal, precisa do sentido para acompanhar a vocalista Lou (Olivia Cooke) e cumprir a agenda de shows programados para acontecer em bares de diferentes cidades americanas.
Os dois vivem em um trailer e como se não houvesse amanhã, apenas com a preocupação de ter dinheiro suficiente para comer, para abastecer o veículo e para estampar e disponibilizar para a venda camisetas personalizadas aos fãs. O futuro a Deus pertence e quem sabe eles terão condições financeiras para gravar um novo álbum com músicas inéditas, né!?
Os perrengues da dupla começam depois que Ruben visita um especialista e toma ciência da gravidade de sua surdez repentina causada, provavelmente, pelo uso frequente de drogas, especialmente a heroína.
Não preciso nem dizer que o desespero bate no bonito, especialmente porque ele deseja fazer um implante coclear, ou seja, colocar um dispositivo eletrônico que proporciona uma sensação auditiva próxima da fisiológica. No entanto, o procedimento custa caro e o personagem não tem dinheiro suficiente para pagar a cirurgia.
Paralelamente, conhecidos do casal indicam uma comunidade de apoio a pessoas com deficiência auditiva existente no interior americano e que poderia ajudá-lo com sua nova realidade, ensinando-o a linguagem de sinais, bem como lidar com o silêncio permanente, além de oferecer apoio emocional através da terapia da escrita, ou seja, do uso da palavra escrita como tratamento terapêutico.
Para uma melhor imersão no grupo silencioso, Ruben precisa cortar vínculos externos, inclusive com Lou por um tempo e ele resiste em fazer isso, mas percebe que está desorientado e necessitando trocar experiências com outros surdos, inclusive crianças para manter sua sanidade mental e pensar a respeito de seus próximos passos e decisões.
O interessante é que a obra é mais uma na disputa pela estatueta dourada que exige que um de seus personagens construa sua interpretação em cima de uma comunicação não verbal e pautada em gestos e expressões faciais e corporais. Além de Riz Ahmed de “O som do silêncio”, nós vimos a atuação da atriz mirim Helena Zengel, de “Relatos do Mundo”, e da atriz Caoilinn Springall, de “O céu da meia noite” nesta temporada de premiações.
O ator Riz Ahmed se destaca dentro do trio de artistas porque é através de seus olhares, de suas explosões e atitudes impulsivas que o espectador consegue ter a dimensão de seu desalento momentâneo. Curiosamente, o ator aprendeu a tocar bateria e a se comunicar através da linguagem de sinais para transmitir veracidade em suas atitudes fictícias.
Confesso que também adorei a atuação de Paul Raci como Joe, pois a ator construiu um personagem sábio, acolhedor, sereno, mas ao mesmo tempo firme e dedicado à comunidade que formou depois de perder grande parte de sua audição nas trincheiras de guerra.
Outro fato importante da película é o trabalho de som e montagem feito nesta e que tenta recriar para o espectador o quanto nossa vida cotidiana está repleta de sons e ruídos de todas as ordens, desde o canto de passarinhos, como os ruídos originários de aeroportos, o barulho do tráfego intenso de carros ou os extraídos de brincadeiras corriqueiras como andar de skate e de como o silêncio pode ser algo libertador para algumas pessoas.
Na última semana, “O som do silêncio” saiu ganhador durante a cerimônia do Bafta, o Oscar Britânico, abocanhando duas estatuetas durante o evento inglês, sendo a de melhor montagem e melhor som.
Outro ponto que não dá para fazer vista grossa é a caracterização dos personagens, especialmente o figurino ostentado por cada um deles, pois além de coerente, é através das peças que nós, espectadores, conseguimos perceber a projeção do caráter e dos pensamentos de cada um deles, bem como sentir o poder imagético e expressivo que cada uma das peças possui.
Sensível, tocante e com aquela carga dramática que tanto gostamos de ver nos indicados ao Oscar, “O som do silêncio” tornou-se um forte candidato na cerimônia que será realizada no próximo domingo, em Los Angeles, e eu confesso que estarei de dedos cruzados e torcendo para que ela saia vencedora na ocasião.
“O som do silêncio” está disponível em duas plataformas distintas: no Amazon Prime e no Now. Não perca a chance de assisti-lo!
Eu amei!

Maria Oxigenada
Foto e video: reproduções