Não é sempre que nasce um tigre branco, pois a espécie é uma variante do tigre de bengala, é rara e está em extinção atualmente. Além disso, o animal é um caçador solitário, que curte atacar na calada da noite e que tem a audição como o sentido mais desenvolvido.
Logo no início do filme “O tigre branco”, seu protagonista Balram Halwai (Adarsh Gourav) é comparado ao animal, pois no meio de tantas crianças paupérrimas foi a escolhida para continuar estudando com a ajuda de programas assistenciais do governo. O que o diferenciava das demais? Simplesmente o fato de saber ler.
No entanto, nada disso pesou quando seu pai faleceu vítima de pneumonia, obrigando Balram a abandonar os livros para ajudar sua família na fábrica de chás. Que carma, Oxigenadas! Não sei se vocês sabem, mas a Índia é dividida em castas e membros de castas inferiores raramente ascendem econômica e socialmente, sendo obrigados a uma vida inteira de servidão.
E a única maneira de girar a roda do destino, alcançar um status melhor e trocar de casta é através da política ou do crime. Nada muito criativo, né!? E bem semelhante ao que acontece em outros países pobres e subdesenvolvidos do mundo.
O interessante da história contada é que o seu protagonista é um típico anti-herói que inicia a aventura vítima das circunstâncias e do seu entorno e aos poucos vai conquistando os espectadores com suas tramoias, crimes e com seu jeitinho de ser que, aliás, passa bem longe do vitimismo e da ingenuidade.
A ambição é o que catapulta Balram para junto do empresário Ashok (Rajkummar Rao) e de sua esposa Pinky (Priyanka Chopra), pois o personagem principal faz de tudo para tornar-se o motorista particular do casal e dizer adeus a Laxmangarh, sua cidade natal.
Aos poucos, ele começa a sentir na pele as diferenças existentes entre eles, vislumbrando um futuro distinto do traçado pelos seus ancestrais e almejando ocupar cargos de chefia ou de autoridade, assim como seu patrão. Para isso, Balram observa como Ashok atua junto aos empresários estrangeiros e políticos e abre os ouvidos para o potencial de mercados emergentes como a Índia.
O pulo do tigre vem com a realização de crimes bárbaros, tendo os espectadores como testemunhas e torcida, pois por mais incrível que isso possa parecer o público simpatiza com o personagem principal desde os primeiros minutos da obra e vibra com cada uma de suas conquistas e rasteiras dadas.
O maior mérito da película é contar com a atuação de Adarsh Gourav que constrói várias camadas para o seu Balram, utilizando-se de gestos minimalistas, posturas corporais, pausas programadas e palavras certeiras para contar essa história de superação, pois ele também assume o papel de narrador da trama.
Gostei da participação da atriz Priyanka Chopra que se torna a voz lúcida diante dos demais personagens porque em várias cenas sua personagem Pinky confronta valores, tradições e o machismo existente na cultura indiana. Além disso, a artista é uma das produtoras do filme que está concorrendo ao Oscar de 2021 como melhor roteiro adaptado.
“O tigre branco” também apresenta diálogos pontuais, ritmo e uma montagem eficaz, apesar de possuir algumas barrigas narrativas que brecam o dinamismo da história, mas o melhor da obra é que é perceptível a evolução das produções de Bollywood desde o lançamento de “Quem quer ser um milionário?” e sua maturidade atual em falar sobre os seus problemas sociais, os reflexos de sua colonização inglesa, mas também sobre os preconceitos e episódios de discriminação racial sofridos não só por uma parcela da população que insiste em visitar ou migrar para países mais desenvolvidos.
Eu o indico.

Maria Oxigenada

Sugestões de filmes que abordam temáticas parecidas, particularmente a questão da exclusão: o indicado ao Oscar 2021 “Minari”, assim como “Parasita”, “2046”, “Corra!”, “12 anos de escravidão”, “13 Emenda”, “Paradise Now”, o documentário “Ex-Pajé”, “O Pianista” e “Noite e Neblina”.
Foto e vídeo: reproduções