O blá blá blá é enorme na película, assim como as trocas de farpas, a ebulição de mágoas e as pausas repletas de silêncio. A sensação de déjà vu é latente e flashes de “História de um casamento” e de “Antes da meia noite” me vieram à mente, mas a narrativa de “Malcolm & Marie” é outra e foi construída em cima de um relacionamento tóxico.
De um lado está Malcolm, cineasta que acaba de voltar da pré-estreia de seu primeiro longa-metragem e chega em sua casa eufórico e disposto a comemorar a boa recepção da obra com sua namorada Marie.
No entanto, ela o observa atentamente, esperando o momento ideal para confrontá-lo em relação ao seu discurso de agradecimento, pois em nenhum momento do evento ela foi lembrada, sendo que o enredo do filme é baseado em suas tragédias pessoais e em episódios de quando era dependente química.
Marie também está magoada com Malcolm por não ter sido ela a protagonizar a obra, apesar de ter demonstrado interesse em fazer os testes para a seleção do elenco oficial e experiência suficiente para encarar a personagem suicida.
O embate entre os dois começa logo nos primeiros minutos do filme e o espectador observa a lavagem de roupa suja da dupla, além das dificuldades de comunicação do casal e do quanto os dois estão se esforçando para não jogar tudo para o alto e colocar ponto final no relacionamento de anos.
Apesar disso, a película conta com outros pontos nevrálgicos e que o diretor Sam Levinson não se melindrou em tocar, tais como: os preconceitos e episódios de racismo vividos por diretores e atores negros e afrodescendentes na indústria cinematográfica e do entretenimento, bem como a presença de egos inflados, de vaidades e necessidades de reconhecimento dos profissionais da área.
Agora, o interessante de “Malcolm & Marie” é que ele foi rodado em plena pandemia em uma única locação, com uma equipe diminuta que ficou confinada no próprio local e que seguiu todos os protocolos de segurança exigidos pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
Comparações com a dinâmica atual de confinamento acontecem sem o espectador perceber, pois os personagens também estão isolados em uma casa enorme, sem vizinhos próximos e ainda estão presos nas horas que compõem uma única noite.
Outro ganho do filme é que ele foi rodado em branco e preto, polarizando ainda mais as personalidades cênicas, além de arrematar a narrativa com uma trilha sonora composta por músicas que tinham muito a dizer sobre os personagens e que espelhavam sentimentos distintos em cada uma das cenas vistas, tais como: “Down and Out in New York City”, “Selfish”, “Betaminus”, “Yum Yum Gimme Some”, “In a sentimental mood”, “I forgot to be your lover”, “Flor de Azalea”, “BON”, “Get Rid of Rim”, “Wasted”, “Going Home”, “Liberation”, entre outras.
E apesar das trocas sob os holofotes, dos diálogos afiados, a presença de monólogos extensos e do bom desempenho dos atores diante das câmeras, especialmente de Zendaya, eu achei a película cansativa e terminei a aventura refletindo a respeito das sequelas deixadas em vítimas de abusos emocionais e me questionando a respeito de quanto que o amor suporta?
O filme não é de fácil digestão! Na verdade, ele é uma montanha russa de sensações para os espectadores. Apesar disso, a obra é essencial para o curriculum de quem deseja fugir de pessoas manipuladoras, tóxicas, egóicas e que sentem prazer com o sofrimento alheio.
#fica a dica.
Maria Oxigenada

P.S: A atriz e cantora Zendaya recebeu uma indicação ao SAG Awards pela sua performance em “Malcolm & Marie”, mas ficou de fora da disputa do Oscar deste ano.