Não há mágicas ou bruxarias! Para que fatos históricos, pessoas e línguas não caiam no esquecimento ou sumam por completo é preciso da ajuda das palavras e de pessoas que nos lembrem constantemente sobre eles, pois um povo e uma nação que não reconhece suas memórias tende a repetir seus erros.
É fato que o poder da descrição, da oralidade e da inventividade recai sobre as mulheres. Desde que o mundo é mundo, somos nós as contadoras oficiais e narradoras de aventuras diversas. Um bom exemplo é Sherazade, rainha persa que fascinou o rei com suas histórias fantásticas durante mil e uma noites, além de persuadi-lo a poupar sua vida.
No entanto, a luta pela sobrevivência, pela liberdade e para se expressar criativamente não se restringe somente a Sherazade e sim a outras personalidades e pessoas comuns, tais como: Joana D´Arc, Maria Bueno, Rosa de Luxemburgo, Josephine Baker, Stela do Patrocínio, Camille Claudel e Olga Benário que transformaram seus entornos e as pessoas com as quais conviviam com suas ideias e atitudes.
Em sociedades patriarcais, mulheres como as citadas acima costumam ser silenciadas através de sessões de tortura, episódios violentos e imposições físicas porque mulheres reunidas, livres, educadas, contestadoras e com recursos emocionais para induzir alguém aceitar uma ideia, uma atitude ou realizar uma ação assustam e muito os bonitos.
O monólogo “Para não morrer” fala exatamente disso e de como até hoje as mulheres precisam adotar ora atitudes combativas, ora negacionistas para continuar em pé, respirando, olhando o mundo de frente e sonhando com a possibilidade de outra realidade.
Só para vocês terem ideia da dimensão do que estou falando, durante a pandemia houve uma explosão de agressões contra as mulheres. Na Nigéria e África do Sul, os estupros registraram alta. Já no Peru aumentaram o desaparecimento de mulheres, enquanto no Brasil e no México os feminicídios estão recorrentes dentro das residências.
E vocês sabem o que é mais curioso? É que o homem é o único animal que tortura e mata seu semelhante. Isso não é aterrorizante, Oxigenadas!? Eu acho.
Baseada no livro “Mulheres”, de Eduardo Galeano, a peça é protagonizada pela atriz e diretora Nena Ioune que sentada em uma poltrona e encarnando uma versão de bruxa centenária fala um texto poderoso e com potencial de identificação e até cura. A artista enfeitiça os espectadores quando canta a música “Gracias a la vida”, passando a mensagem de que a experiência de viver é única.
E apesar de permanecer durante mais de 1h30 sentada só no blábláblá, é visível o trabalho de construção do personagem, pois a atriz permanece com seus pés tortos e voltados para dentro, além de gesticular somente com o braço direito e adotar uma boca torta; tudo na intenção de representar as sequelas de suas outras vidas, onde também falava pelos cotovelos e passava a História adiante.
“Para não morrer” é uma peça de impacto, costurada com passagens verídicas, especialmente com episódios da ditadura chilena e argentina, além de estar recheada de ancestralidade, mas que também transpira poesia e ressalta a beleza vista no passado.
Eu adorei!
Maria Oxigenada
P.S: Gostaria de indicar o filme “Silenciada”, lançamento do mês na Netflix, que conta a história de cinco amigas que foram presas e torturadas por autoridades espanholas que acreditavam que as jovens eram bruxas e feiticeiras. Para escaparem da morte, elas são obrigadas a realizar o ritual de Sabbath, no qual conversam e se relacionam sexualmente com o diabo.
O problema é que elas eram apenas camponesas e artesãs e precisaram enrolá-los por semanas, assim como Sherazade, com histórias criativas, cantos e danças folclóricas, com o uso de uma língua diferente do espanhol nativo falado pelos juízes e soldados e com a oferta de cogumelos alucinógenos para eles. O filme reserva um final surpreendente! Eu o indico!
Serviço:
Onde assistir a peça “Para não morrer”: na página do Sesc SP no Youtube.
Foto e vídeo: reproduções