Para tudo, Brasil! Colocar em pé uma série nacional já é um feito e tanto para os dias atuais, agora imaginem a obra cair na boca da galera de diferentes partes do mundo e figurar entre as mais assistidas na plataforma Netflix no mês de fevereiro?
Nada é à toa, né!? E muito disso se deve ao fato de “Cidade Invisível” ser uma série de realismo fantástico ambientada na cidade do Rio de Janeiro, além de contar com uma narrativa misteriosa envolvendo criaturas míticas do nosso folclore, além de cenas de ação, crimes não solucionados, personagens dúbios e que assumem outras identidades, além de comportamentos mundanos para sobreviver bem longe de seus habitats naturais.
Nesta primeira temporada, o espectador é apresentado à Cuca (Alessandra Negrini), ao Saci Pererê (Wesley Guimarães), ao Curupira (Fábio Lago), à Iara (Jéssica Córes), ao Boto Cor-de-Rosa (Victor Sparapane), ao Tutu Marambá (Jimmy London) e ao Corpo Seco (Eduardo Chagas). Tá bom para vocês?
Para mim está tudo lindo, maravilhoso, especialmente porque alguns deles me acompanham desde a minha infância quando assistia as aventuras escritas por Monteiro Lobato para o sítio do Pica-Pau Amarelo ou quando lia ou ouvia algum conto folclorista na escola ou pelas bocas de meus avós.
Aos poucos, é possível reconhecer os personagens fictícios, apesar da caracterização feita com peças de roupas atuais e não as fantasias que os consagraram como a de jacaré, veste da Cuca de antigamente, bem como o enfoque dado na história voltada para adultos e não mais para as crianças.
O protagonista da obra é Eric (Marco Pigossi), detetive da Polícia Ambiental carioca, que é obrigado a sepultar sua esposa Gabriela (Julia Konrad), vítima de um incêndio ocorrido nas matas da Vila Toré durante a realização da festa junina anual e, a partir de então, precisa dividir as responsabilidades pela criação e educação de Luna (Manuela Dieguez), sua filha, com sua avó Januária (Thaia Perez).
E mesmo passando pelo processo de luto, Eric resolve voltar ao trabalho e investigar o caso com a ajuda de sua colega de profissão Márcia (Áurea Maranhão). Aos poucos, os dois vão tomando ciência de que a floresta é alvo da especulação imobiliária e que seus moradores estão sendo persuadidos por João (Samuel de Assis) para vender suas casas.
A resistência encontra-se concentrada no personagem Ciço (José Dumont), um dos protetores das matas e detentor de toda sabedoria e cultura existente por trás da preservação das espécies de plantas, animais, lendas e divindades como algumas das descritas acima.
Paralelamente, Eric e Márcia são testemunhas de episódios estranhos, sobrenaturais até, como a morte de um boto cor-de-rosa nas areias do Aterro do Flamengo, sendo que o animal é natural de água doce e oriundo da região
Amazônica ou o interesse de Inês/Cuca (Alessandra Negrini) em relação ao destino dado ao corpo rosado.
E é a partir desse momento que as costuras narrativas começam a acontecer e os mundos reais e fantásticos começam a se entrelaçar e intrigar principalmente Eric.
Os finais de cada um dos sete episódios desta primeira temporada criam ganchos para os próximos, além de serem dinâmicos, contarem com cenas de ação e suspense e, ainda, possuírem boas atuações, especialmente da atriz Alessandra Negrini, do ator Fábio Lago e Marco Pigossi. Destaque para as presenças cênicas de Áurea Maranhão e Thaia Perez. Um luxo!
Tanta fantasia, tanta piração é embalada não só pelo canto da sereia Camila, como também por uma trilha sonora composta por músicas de Os Mutantes, Dona Ivone Lara, Cantadeiras do Souza, MC Kevin o Chris, Dália de Oliveira, Julinho, Rakta, Kevin Paz, Franck Sarkissian, entre outros artistas nacionais e internacionais.
Apesar disso, “Cidade Invisível” peca em vários aspectos, tais como: não possuir em seu elenco índios e descendentes, não ambientar a obra nas regiões norte e nordeste, berços do folclore brasileiro, e não aprofundar cada uma das lendas e dos seres míticos antes de inseri-los no contexto da narrativa.
Dirigida por Carlos Saldanha, “Cidade Invisível” é a oportunidade de visualizar alguns personagens da nossa cultura popular em cenários e contextos completamente distintos daqueles que nos foram apresentados anos atrás e fantasiar a respeito da presença de cada um deles na formação de nossas lembranças infantis.
O melhor da série é sua mensagem final de preservação de nossas memórias, nossa história, nossa cultura e, principalmente, nossas riquezas e belezas naturais! A boa notícia é que a segunda temporada já foi confirmada pela Netflix, mas ainda não tem previsão de estreia.
Aguardemos…
Maria Oxigenada

Foto e vídeo: reproduções