As minhas fichas foram jogadas no filme italiano “Rosa e Momo” como o melhor estrangeiro da temporada. Também pudera, né! Ele é baseado no livro “A vida pela frente”, de Romain Gary, conta com a presença da atriz Sophia Loren (Rosa), com a participação do ator mirim Ibrahima Gueye (Momo) e com a direção geral de Edoardo Ponti, filho de Sophia Loren.
A espinha dorsal do roteiro é construída com a amizade entre os dois personagens principais e com o passar do tempo ela vai se modificando, mas a película também toca em temas relevantes, tais como: a questão imigratória e a situação dos refugiados pelo mundo, bem como transexualidade, tolerância com as diferenças culturais, doenças degenerativas e até o Holocausto.
Este último assunto é abordado de maneira “an passant” e em uma conversa trocada entre a dupla, mas o importante é que o espectador saiba que Rosa é judia, esteve em um campo de concentração e sofreu os horrores da Segunda Guerra Mundial, tanto que ostenta em seu braço direito uma tatuagem com a sua identificação pessoal.
No entanto, foi na Itália que ela reescreveu sua história e foi nas ruas de Nápoles que ela ganhou o pão de cada dia, pois trabalhou como prostituta e hoje é nessa mesma cidade que ela abriga e cuida de filhos de garotas de programa em troca de alguns euros mensais.
Sabendo de sua disposição em acolher crianças em situação de vulnerabilidade, Dr. Coen (Renato Carpentieri) lhe apresenta Momo, órfão senegalês que está sob seus cuidados, mas que precisa de um lar temporário para passar alguns meses.
A questão é que Momo é aquele tipo de criança problema que pratica pequenos furtos diários, que não quer saber de estudar e ainda trabalha como aviãozinho para o principal traficante (Maximiliano Rossi) do bairro.
A princípio, Rosa não gosta nada, nada do garoto e de sua influência sobre as outras duas crianças que estão morando com ela naquele momento. Então, a protagonista resolve pedir um favor para Hamil (Babak Karimi), comerciante local, para ele ensinar seu ofício à Momo e tê-lo como seu ajudante na loja de tapetes e antiguidades.
E apesar de Momo estar cercado de boas pessoas que estão dispostas a ajudá-lo e amá-lo, o personagem continua traficando e desfrutando de bens adquiridos com seus voos ilegais. Destaque para duas cenas distintas de felicidade efêmera do garoto: uma em que Momo compra uma bicicleta motorizada e passeia pela ciclovia e outra em que ele cai na noite e se esbalda na pista de dança na companhia do chefão do tráfico.
Agora, uma das cenas mais poéticas do longa-metragem é quando Rosa dança ao som de “Malandro”, de Elza Soares, com Lola (Abril Zamora), sua vizinha transexual e mãe de um de seus protegidos.
“Rosa e Momo” é um filme curto e com apenas 94 minutos de duração, mas o que ele tem de mais bacana é o arco narrativo de Momo e as transformações comportamentais vividas pelo personagem. Tanto é verdade que a obra é construída sob o olhar atento e, vez ou outra, ingênuo do garoto de 12 anos.
Quanto à a atriz Sophia Loren, ela presenteia o espectador com uma atuação comovente e que exigiu da artista momentos de concentração e contensão gestual, especialmente naqueles em que sua personagem está hospitalizada ou sentindo o agravamento do Alzheimer.
Outro ponto positivo da película diz respeito a sua ambientação que exteriorizou ao público a dinâmica existente e as figuras presentes nas ruas da periferia de centros urbanos, como prostitutas, travestis, imigrantes, guardas municipais, assistentes sociais, traficantes, mendigos, comerciantes e nada de turistas.
“Rosa e Momo” está concorrendo como melhor filme estrangeiro, mas a música “Io Si” (Seen) com Laura Pausini interpretando-a também está na disputa pelo globo dourado como melhor canção de filme.
Confesso que o longa-metragem me emocionou bastante e várias lágrimas escorreram pelo meu rosto ao longo da aventura, então quem deseja entrar em contato com uma obra sensível, delicada, que retrata os pormenores do cotidiano e as convergências humanas, eu a indico.

Maria Oxigenada
Foto e vídeo: reproduções