Gozar de uma manhã tranquila está cada vez mais difícil, pois cada dia que amanhece carrega consigo uma resenha diferente. Eu já perdi as contas de quantas vezes fui acordada por britadeiras em ação logo ao amanhecer, especialmente as pertencentes à companhia de saneamento básico que arrebentaram todas as ruas da região atrás de vazamentos de água.
E as sirenes usadas pelas construções para informar pedreiros, mestres de obras, engenheiros e outros profissionais atuantes no local sobre o início das atividades diárias. Elas tocam durante dois minutos ininterruptos, exatamente as sete horas da manhã e são mais exatas do que os sinos das catedrais.
O carnaval deste ano começou diferente por aqui e com a apresentação solo de um reminiscente da Timbalada. Só pode! As batidas ritmadas de um novo mendigo da rua foi o que não me deixou perder o meu treino diário.
Meu primeiro pensamento foi de que continuava sonhando com alguma aventura passada em tribos indígenas ou estava participando de rituais de povos antigos onde as batidas de tambores acompanham a cerimônia, mas depois que eu me levantei e saí no portão de casa eu vi que o mendigo tinha se posicionado no meio do quarteirão e estava descendo o couro em um tambor de óleo como se estivesse tocando um timbal.
O engraçado foi que ele ora usava suas mãos para compor sua canção inédita e ora ele recorria a um pedaço de pau como se fossem suas baquetas de estimação. É! A apresentação foi longa…
Sinceramente, não sei de onde o cara tirou energia para tocar o tambor por tantas horas a fio porque o show ao vivo adentrou a tarde e só se encerrou com a chegada de um carro da polícia militar no início da noite. Fôlego invejável, né!?
Eu que me mato na piscina da academia diariamente não tenho nem a metade do seu condicionamento físico e tenho certeza de que terminaria a apresentação reclamando de fortes dores nos braços e ombros pelo esforço repetitivo duradouro, há, há, há…
O pior de tudo é que não o vi fazendo intervalos para hidratação e nem para comer algo e fiquei pensando que o timbaleiro era adepto do jejum intermitente e da prática de exercícios sem a adição de alimento algum no organismo. Também fiz um cálculo rápido mental da quantidade de calorias gastas pelo bonito e cheguei à conclusão de que ele pode ser considerado um atleta.
Não sei para onde os policiais o levaram, se para um abrigo ou para o pronto socorro ou para uma igreja ou para um hospital psiquiátrico. O que sei e vi foi o mendigo entrando no porta-malas da viatura e abandonando seu timbal no meio da calçada para qualquer outro andarilho ou músico solo desfrutá-lo.
Quanto ao tambor, alguém da vizinhança se encarregou de descartá-lo em alguma caçamba de rua ou pediu para que o caminhão de lixo o levasse para bem longe daqui porque hoje a rua estava limpa e sem resquícios de que tinha sido espaço de apresentações públicas.
Nesta manhã, eu acordei com o barulho da chuva caindo, com o cheiro de terra úmida e com aquela vontade de passar o dia todo pulando carnaval na minha cama na companhia do Fê, há, há, há,…
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução