Carnaval rolando e eu tô como? Ouvindo jazz e blues, há, há, há…as marchinhas e os sambas enredos ficaram de lado e para o próximo ano, assim como a pulação atrás de trios elétricos e as saídas em bloquinhos de rua.
Mas em relação a trilha sonora do momento e da obra, eu não tenho o que reclamar porque ouvir as composições e a voz potente de Ma Rainey (Viola Davis), mãe do blues, é um presente neste feriado atípico.
Baseado na peça homônima de August Wilson, o filme “A voz suprema do blues” acompanha a gravação de mais um disco de Ma Rainey e sua banda formada pelo trompetista Levee (Chadwick Boseman), pelo trombonista Cutler (Colman Domingo), pelo pianista Toledo (Glym Turman), além de Slow Drag (Michael Potts) em um estúdio localizado em Chicago.
Logo nos primeiros minutos da obra, o espectador toma ciência da força que é a artista retratada e de como ela faz questão de impor sua presença e vontades perante seu empresário Irvin (Jeremy Shamos), diante do dono da gravadora e de outros músicos.
A película é ambientada em 1927 e faz um retrato da sociedade racista da época, inclusive episódios ocorridos dentro do meio artístico, por isso o diretor George C. Wolfe abre espaço para as vozes negras presentes falarem e dividirem com os demais personagens passagens dramáticas que presenciaram ao longo de suas vidas fictícias.
E para aumentar a sensação claustrofóbica vista pelos espectadores, o diretor George C. Wolfe resolveu trancar os personagens dentro de ambientes sem ventilação suficiente e onde o verão de Chicago pode ser percebido através das gotas de suor escorridas e do brilho intenso das peles dos personagens.
O interessante do filme é que ele mostra mais de um cabo de guerra em ação, ou seja, além do embate artístico entre brancos e negros, a obra também evidencia os confrontos entre os integrantes da banda, especialmente Levee que fazia questão de medir forças com Ma Rainey para ganhar os holofotes durante as apresentações e na intenção de gravar seus próprios discos e composições.
Assim como o filme “Os 7 de Chicago”, a força de “A voz suprema do blues” recai sobre as palavras, na tensão dos diálogos presentes e nas interpretações dos atores, particularmente de Viola Davis e Chadwick Boseman. O ator falecido em agosto de 2020 entrega uma atuação visceral, enfurecida até e parece vomitar diante das câmeras não só o sofrimento e a raiva de sua personagem, como também a própria por estar partindo prematuramente desta vida e sendo mais uma vítima de câncer.
Já Viola Davis tem uma atuação mais contida no longa-metragem, mas nem por isso menos vibrante! Ela concentra todos os ressentimentos de Ma Rainey nos olhares em que troca com os demais, asfixiando-os sem nem mesmo dizer uma única palavra.
Outro ponto positivo da obra é a caracterização dos personagens feita com makes derretidos, olhos borrados, assim com um figurino de época criado com vestidos de cintura baixa, luvas, leques, boinas, peles e perucas, além de ternos de alfaiataria e de risca de giz, sapatos coloridos e botas desgastadas.
“A voz suprema do blues” conta com 94 minutos de duração, é um filme com aquele jeitão de peça teatral que é intensificado pela presença de um balé de câmeras responsável por captar expressões faciais e dançar por cantos das locações ao ponto de entorpecer o espectador, especialmente durante as cenas externas.
Por ser mais uma obra que aborda a questão do racismo, por fazer um recorte temporal, por nos apresentar a história de Ma Rainey através de 24 músicas distintas de jazz e blues reinterpretadas pelo vencedor do Grammy Brandford Marsails, eu indico a obra.
Tenho certeza de que a atriz Viola Davis vai mais uma vez sambar na cabeça de suas adversárias e abocanhar a estatueta de melhor atriz de drama na cerimônia do Globo de Ouro, no dia 28 de fevereiro. Além disso, espero que a organização do evento faça uma justa homenagem póstuma ao ator Chadwick Boseman, o eterno Pantera Negra.
Beijos,

Maria Oxigenada
Foto e vídeo: reproduções