E lá vamos nós de novo atrás dos filmes indicados ao Globo de Ouro de 2021! A cerimônia acontecerá virtualmente no dia 28 de fevereiro e terá como grande homenageada da noite a atriz Jane Fonda pela sua contribuição à indústria cinematográfica durante mais de 50 anos. Na ocasião, ela receberá o prêmio Cecil B. DeMille, mas a artista já abocanhou outros sete Globos de Ouro.
Quanto ao filme “Os 7 de Chicago”, ele é baseado em fatos reais e acompanha o julgamento de sete, ou melhor, oito líderes de movimentos sociais que foram presos e acusados de conspiração e incitação à violência durante a Convenção do Partido Democrata realizada em agosto de 1968 na cidade.
A princípio, o confronto físico com a polícia local estava fora dos planos das lideranças participantes e sim, a realização de uma manifestação pacífica contra a Guerra do Vietnã e a morte de milhares de jovens, contra a violência policial e o abuso de poder de agentes públicos e autoridades, mas a verdade é que tudo saiu do controle na ocasião e eles foram responsabilizados pela confusão ocorrida na época.
No entanto, a obra vai além e discute o racismo e as injustiças vividas pelos negros e afrodescendentes americanos no final da década de 60 através da figura e presença de Bobby Seale (Yahya Abdul Mateen), líder e fundador do partido dos Panteras Negras. E apesar de ficar evidente que o personagem não participou do protesto em discussão, nem tinha relação alguma com os demais setes líderes (Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines e Lee Weiner), ele foi levado à corte e considerado a oitava pessoa a ser julgada pelos crimes citados acima.
Vocês já perceberam que o filme é ambientado dentro de um tribunal e sua força recai sobre os diálogos presentes, né!? Apesar disso, a película conta com cenas reais e de flashback, pois os canais televisivos de todo o mundo registraram tudo para a posteridade e acompanharam o julgamento durante cinco meses.
Sim! É possível traçar um paralelo entre a narrativa e com o que está acontecendo na atualidade e perceber que episódios de racismo e violência policial continuam ocorrendo como a asfixia sofrida por George Floyd, em Minneapolis, no ano passado.
Na obra, o personagem Bobby Seale apanhou, foi amordaçado e humilhado por policiais a pedido do juiz Julius Hoffman (Frank Langella) durante uma das sessões do julgamento conjunto, simplesmente por lembrar a autoridade de que estava sendo julgado por um crime que não cometeu sem a presença de seu advogado e sem o direito de defesa legal.
Já o cabo de guerra visto dentro do tribunal é construído entre o advogado de defesa chamado William Kunstler (Mark Rylance) e o promotor Richard Schultz (Joseph Gordon-Levitt). A movimentação, o posicionamento e o enquadramento de câmeras no ambiente ajudaram a evidenciar qual desses personagens estava se sobrepondo ao outro na cena e diante do júri popular. Muito legal!
O roteiro escrito e dirigido por Aaron Sorkin é denso e não abre espaço para o desenvolvimento de subtramas envolvendo personagens secundários. Apesar disso, ele surpreende nos minutos finais com a participação do ex-Procurador Geral Ramsey Clark (Michael Keaton) que altera o rumo esperado da história ficcional, pois ele faz questão de eximir os sete envolvidos de qualquer responsabilidade pelos embates com a polícia de Chicago em agosto de 1968.
Outra surpresa foi saber o desfecho do julgamento e que fim levou cada um dos envolvidos retratados em “Os 7 de Chicago”. O ativista social e líder estudantil Tom Hayden, por exemplo, continuou lutando a favor dos direitos civis, elegeu-se várias vezes para cargos políticos e ainda por cima foi casado por 17 anos com Jane Fonda, homenageada da festa.
Já o ativista social, líder do movimento hippie e ícone da era da contracultura Abbie Hoffman teve um desfecho trágico e triste, pois faleceu em decorrência de uma overdose, em 1989.
“Os 7 de Chicago” está concorrendo em cinco categorias distintas no Globo de Ouro de 2021, sendo melhor filme do ano, melhor direção (Aaron Sorkin), melhor ator coadjuvante (Sacha Baron-Cohen no papel de Abbie Hoffman), melhor roteiro e melhor canção original (“Hear my voice”).
Uma pena que o evento não conte no seu portfólio com categorias como melhor cenografia e melhor figurino, pois a reconstituição de época da película está ótima! Os personagens desfilam através das cenas vestindo ternos de linho, maxi-paletós, jaquetas com franjas e de couro, muitas peças jeans, além de golas altas, gravatas estreitas, camisetas com decote V de algodão, faixas e bandanas nas cabeças e botas nos pés.
utro ponto forte da obra é sua edição com montagens rápidas e explicativas sobre as instabilidades sociais daquele momento, assim como o seu elenco, especialmente o ator Mark Rylance que convence como o advogado de defesa indignado com os mandos e desmandos do juiz e o ator Sacha Baron-Cohen que rouba as atenções em várias cenas presentes.
“Os 7 de Chicago” é um filme que merece ser visto, apesar de não ser aquele tipo de obra que agrada a todas as pessoas exatamente por ser um drama, restringir-se a poucas locações, ser um exemplar de filme verborrágico e que obriga a concentração dos espectadores, mas que também enfatiza que a democracia e os direitos civis já estavam ameaçadas e sendo questionadas por governantes na década de 60. E agora? Vocês acham que o cenário é diferente?
Eu gostei e indico o filme.

Maria Oxigenada
Foto e vídeo: reproduções