Eu fui buscar nas prateleiras da minha memória uma música que representasse os personagens da série “O preço da perfeição” e bem escondidinho lá no canto direito do móvel imaginário eu achei “Mulher de Fases”, dos Raimundos.
Taí uma obra que descreve toda a loucura do ciclo menstrual feminino e os altos e baixos passados por todas nós mensalmente. No entanto, o produto lançado pela plataforma Netflix no final de 2020 não é um documentário sobre o assunto, mas sim uma série sobre os bastidores de uma escola de balé e o cotidiano de seus alunos.
O ritmo dentro da Archer School of Ballet é puxado e começa bem cedo. Além disso, os dias são preenchidos com muitos ensaios, exercícios de fortalecimento muscular, muita competição para quem irá protagonizar cada novo espetáculo, o que aliás desencadeia uma ciumeira sem fim entre os alunos locais que até assumem atitudes antiéticas para brilhar sob os holofotes.
Para quem assistiu ao filme “Cisne Negro”, estrelado pela atriz Natalie Portman, este ambiente tóxico e o comportamento obsessivo dos bailarinos não serão novidades, assim como os litros de suor e sangue derramados.
A série começa com um crime e com a perfeitinha da Cassie (Anna Maiche) desabando igual fruta podre do telhado da escola. Ela estava dançando nas alturas quando alguém a empurrou propositadamente. O resultado só não foi pior porque ela foi reanimada na calçada pela policial Isabel (Jessica Salgueiro). Apesar disso, Cassie permaneceu hospitalizada e em coma induzido por meses.
Então, uma nova vaga foi aberta no corpo de baile e ela foi preenchida por Neveah (Kylie Jefferson), nova bolsista da Archer School of Ballet. Influenciada pela cultura hip-hop, a garota chega questionando a hierarquia e a metodologia usada pelos professores da instituição de ensino, por isso ganha a inimizade e olhares atravessados de outros alunos, professores e até da diretora Madame Dubois (Lauren Holly).
Desde o primeiro dia de aula de Neveah, Bette (Casimere Jollette) a afronta e trama para que a novata não ocupe nenhum papel de destaque no espetáculo “Jack, o Estripador”, peça criada pelo coreógrafo Ramon (Bayard de Murguia) e que irá fechar o ano estudantil da instituição.
O problema é que Bette está machucada e com o seu pé quebrado e mesmo assim deseja protagonizar o solo existente no show. Para isso, ameniza suas dores com remédios fortíssimos fornecidos pela sua própria mãe. Ela ainda conta com a ajuda de sua amiga June (Daniela Norman) para dar um chega para lá definitivo em Neveah.
Entretanto, com o decorrer dos episódios June precisa focar em seus próprios problemas porque sua mãe não está mais disposta a bancar seus estudos e formação como bailarina e a garota precisa se emancipar e se virar nos trinta para conseguir seu diploma.
Outras temáticas urgentes são abordadas na obra, tais como: distúrbio alimentar que acomete muitos dançarinos e em “O preço da perfeição” o assunto chega ao público através dos dramas vividos pelo personagem Oren (Barton Cowperthwaite), namorado de Bette.
Outro tema interessante levantado na série são os abusos sexuais sofridos por algumas alunas/bailarinas que precisam trabalhar como garçonetes para custear parte de seus estudos, tornando-se acompanhantes de luxo de grandes empresários e autoridades de Chicago; isso tudo com o aval da Madame Dubois.
Agora, há entre os alunos aqueles que permitem que seus corpichos sejam acariciados por protetores ou “sugar mamas” em troca de alguns privilégios dentro da Archer School of Ballet ou de destaque em espetáculos futuros criados pela instituição educacional e esse é o caso de Caleb (Damon J. Gillespie).
Já a pauta que irei discorrer a seguir é mais batida, mas não menos importante. São os preconceitos enfrentados pelos bailarinos e os questionamentos levantados pela sociedade civil a respeito da sexualidade dos boys. O assunto vem a baile através do personagem Shane (Brennan Clost) e dos relacionamentos homoafetivos que ele busca para ser feliz por completo.
Pelo visto, a poeira levantada na primeira temporada de “O preço da perfeição” foram muitas, variadas e ainda contou com partículas sobre xenofobia e intolerância religiosa faladas através do personagem Nabil (Michael Hsu Rosen), crush de Cassie, ou sobre a inveja e rixa existente entre irmãs e que foram depositadas na superfície das sapatilhas de Bette, pois a garota vive as sombras de Delia (Tory Trowbridge), sua irmã mais velha e principal bailarina de uma companhia de dança europeia.
E o último dos fragmentos expostos na obra e que venho chamando a atenção há tempos são os de cunho racistas enfrentados por dançarinos negros ou dançarinos que estejam fora do padrão físico esperado para os profissionais da área.
É claro que “O preço da perfeição” apresenta falhas na fluência de sua narrativa com a presença de barrigas, ou seja, episódios desacelerados, com poucos acontecimentos interessantes rolando simultaneamente e onde o espectador sente que está sendo enrolado pelos autores da obra.
Apesar disso, a série conta com belas coreografias, com figurino construído com peças de moletom, camisetas de algodão, calças jogger, mas também com outras de paetê, feitas em transparências, boleros, shorts de nylon, polainas, além de jaquetas coloridas, sapatos plataformas, muitos saltos, sapatilhas de ponta, além de tutus, bodies e collants, saias envelopes, tops e meias-calças; tudo para favorecer a identificação dos personagens no mundinho sem retoques da dança.
Eu indico.

Maria Oxigenada
Foto e vídeo: reproduções