O acerto de contas começou e 2020 é prova disso porque sentimos na pele as consequências das ações e do descaso do homem em relação à natureza porque a verdade é que quando provocada ela é implacável, né não!?
Imperdoável também tem sido o número de episódios recentes de racismo praticados no Brasil, desde insultos verbais, agressões físicas até casos de homicídios decorrentes de asfixia das vítimas ou balas “perdidas”. Puxaaado, héin!?
Mais puxado é saber que essa realidade não é algo surgido hoje e sim fato que se arrasta por séculos e desde o final da escravidão brasileira, onde os negros e afrodescendentes tiveram enfim o direito de circularem livremente e terem seus esforços remunerados.
Apesar disso, eles foram empurrados para viverem em regiões periféricas de grandes centros urbanos, destino também de migrantes oriundos de outros Estados e de alguns imigrantes que chegaram ao Brasil incentivados pelo governo federal e atrás de novas oportunidades.
O resultado das mesclas surgidas do contato de pessoas tão diferentes e com bagagens culturais tão distintas só poderia resultar em coisa boa e no surgimento de manifestações artísticas como a criação de estilos musicais como o samba, o rap, além do break (estilo de dança de rua) e do grafite; tudo herança da cultura hip-hop americana. Tá bom para vocês?
Quanto ao rap, ele criou asas, ou melhor, rimas por aqui a partir da década de 90 e através de músicas que abordavam a temática do racismo, das desigualdades sociais, da violência urbana e policial, bem como a brutalidade do crime organizado e do Estado brasileiro, entre outros assuntos de cunho social.
As batalhas travadas por seus pioneiros foram enormes e até hoje elas continuam acontecendo nas quebradas e reverberando para toda a sociedade. O interessante é que muitos desses artistas conquistaram visibilidade através das redes sociais e plataformas de streaming, além de independência financeira, como é o caso do grupo Racionais MC´s, Marcelo D2, Criolo, Negra Li e Emicida.
E falando no último, ele é o protagonista e narrador do documentário “Amarelo – É tudo para ontem”. Nos primeiros minutos da obra, o espectador pensa que o filme irá acompanhar a apresentação feita pelo rapper no teatro Municipal de São Paulo, em novembro de 2019, para a divulgação do seu último álbum chamado “Amarelo” e que possui 11 faixas.
No entanto, a galera fica de cara com o conteúdo da película, pois ela conta com cenas desse show citado acima, mas também com o resgate histórico feito por Emicida sobre seus descendentes. Além disso, “Amarelo – É tudo para ontem” coloca sob os holofotes pensadores e personalidades negras que fizeram a diferença na luta antirracista e nas artes, tais como: Lélia González, Abdias Nascimento, Ruth de Souza, Machado de Assis, Joaquim Pinto de Oliveira (Tebas), Cartola, Leci Brandão, Maria Beatriz Nascimento, Jorge Ben, os Oito Batutas (Pixinguinha, Donga, Raul Palmieri, Nélson Alves, Luís Silva, China, José Pernambuco e Jacob Palmieri), além dos integrantes do MNU (Movimento Negro Unificado) e tantos outros artistas.
Para facilitar a digestão do documentário, o diretor Fred Ouro Preto usou animações coloridas na intenção de recriar passagens históricas, transformando-o em material didático, ilustrativo e para pesquisas futuras. Por que, não?
Outro ponto positivo da película é que ela tece uma narrativa de amor e esperança, apesar de toda a verdade escancarada diante de nós e termina em alto astral e com Emicida cantando para uma multidão no Municipal e na companhia de cantores que ainda hoje buscam por representatividade nos palcos, no meio artístico e na vida cotidiana.
Pelo que pude sentir e ver, mais essa conta chegou para nós com anos de atraso e desta vez ela veio discriminada e não camuflada por discursos elitizados carregados de preconceitos, mas sim através de um produto criativo, corajoso e que não têm receios de servir de estimulo para a formação de novas vozes que buscam por justiça e reparações histórica.
“Amarelo” é o trabalho mais solar feito por Emicida e o documentário homônimo é um programa cultural que eu indico para vocês fazerem no decorrer deste verão. Espero que o filme se torne não só uma ferramenta para a reflexão, como também objeto para calorosas discussões futuras entre todos nós.
Beijos,
Maria Oxigenada
Dicas:
Se você deseja aprofundar seus saberes a respeito do período escravocrata e sobre consciência negra, então a sugestão é ler as obras e os pensamentos de Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Angela Davis, Conceição Evaristo, Toni Morrison, Carolina Maria de Jesus, Octavia e. Butler, Maria Firmino dos Reis, Eliana Alves Cruz e Achille Mbembe.
Já se a sua parada é ouvir rimas e poesias, então os últimos trabalhos desenvolvidos pelos rappers Borges, Cazasuja, Djonga, Drik Barbosa, Filipe Ret, Jup do Bairro, Rico Dalasam, Tássia Reis, Sedoka são boas opções.

Foto e vídeo: reproduções