Primeiro foram às crônicas, depois surgiram algumas séries televisivas e peças teatrais abordando a temática da pandemia e a rotina dos primeiros tempos do isolamento social e, agora, nós estamos diante de e-books e livros que falam sobre o assunto.
Não tem jeito! O período está rendendo obras de todos os gêneros e tipos, mas são as com verve criativa e cômica que estão caindo no gosto da galera e desanuviando o dia-a-dia. Como diz o ditado popular: rir é o melhor remédio! E não tem contraindicação, né!?
A peça “Madame Sheila”, com o ator Luís Miranda, é um bom exemplo, pois aborda a vida de uma socialite brasileira que é avessa ao seu país de origem, mora em Paris e está passando a quarentena em sua mansão e na companhia de seus empregados.
E enquanto a maioria dos brasileiros continua sofrendo com a perda de familiares e entes queridos ou a perda de sua renda mensal e precisa contar com a ajuda financeira do governo para alimentar-se, a protagonista da obra passa os seus dias tomando chás, ouvindo músicas, conversando com suas amigas e flanando entre os cômodos da casa.
No entanto, com o passar dos meses ela começa a ficar entediada com a atual rotina domiciliar, sentindo falta de se exibir em eventos sociais ou mesmo frequentar restaurantes, caminhar pela avenida Champs-Élysées ou viajar a bordo de seu jatinho particular, ou seja, a personagem tem dinheiro a dar com o pau, mas não tem onde gastá-lo. Que ironia!
Então, ela começa a ver o invisível, aqueles que a rodeia e que nunca soube nada a respeito, como a sua cozinheira que ela achava que era uma analfabeta, mas na verdade é formada em gastronomia e possui um pequeno restaurante em sua cidade natal ou o seu motorista que julgava ser homossexual, mas tem três filhos crescidos.
O melhor do monólogo é que ele faz críticas ao comportamento da elite brasileira, refrescando das nossas memórias episódios preconceituosos protagonizados por personalidades que desdenharam dos humildes, mendigos e sem tetos durante a pandemia, inclusive uma dama da sociedade paulistana que exteriorizou que a população não deveria fazer caridade, nem doações de comida durante o período.
Para facilitar a degustação da peça, ela foi dividida em oito atos contendo oito minutos de duração cada, ou seja, vocês têm até o final de novembro para subir no bonde do divertimento gratuito e acompanhar as pérolas proferidas por Madame Sheila.
Até o momento, somente dois desses atos foram veiculados através do site do teatro Unimed e nesse segundo encontro diante da personagem, o espectador acaba se chocando com as fantasias, o cinismo e a crueldade da protagonista.
Tudo porque Madame Sheila imagina que seus empregados formaram uma sociedade paralela dentro de sua residência e estão tramando contra ela. E para evitar futuros envenenamentos ou humilhações, a personagem resolve cumprimenta-los diariamente e agradecê-los pelos serviços prestados.
O problema é que essa mudança repentina da patroa é mal interpretada por alguns de seus empregados como sua camareira que força certa intimidade inexistente entre as duas.
É claro que a partir do episódio Madame Sheila vira no Jiraya, se impõe e compra uma passagem somente de ida para o Brasil para a bonita, derrubando de uma vez por todas a máscara de pessoa acessível e compreensível, há, há, há…
O legal do monólogo é que o figurino usado pela personagem está em consonância com o que foi visto recentemente nas semanas de moda e o ator Luís Miranda desfila em cena a bordo de um vestido branco longo com mangas bufantes e punhos largos, além de pérolas e tamancos com plumas. De over, o visu tem somente o leque estilo japonês e os cabelos compridos, com franja reta e no mood de ex-paquita.
A verdade é que as indumentárias ostentadas por Madame Sheila são bem carregadas pelo ator Luís Miranda e o artista constrói com sucesso um personagem ferino, politicamente incorreto, carismático e muito divertido!
Eu estou adorando a experiência de degustar pequenas porções semanais das aventuras de Madame Sheila!

Beijos,
Maria Oxigenada
Serviço: Onde ver: www.teatrounimed.com.br
Quando: as quintas-feiras, às 21h.
Temporada: até 26 de novembro de 2020.
Foto e vídeo: reproduções