Eu montei uma verdadeira operação de guerra para cortar meus cabelos, pois a última vez que eles viram a tesoura foi antes do carnaval e os coitados estavam ostentando pontas duplas, além de opacidade e precisando de uma hidratação power.
Durante todo esse tempo, eu apliquei máscaras quinzenalmente nas madeixas e fiz de tudo para disfarçar os estragos proporcionados pela ausência no templo de beleza, mas a verdade é que nada se compara as mãos de fada da Marcelona e nem no uso de produtos profissionais.
Antes de ir até o local, eu liguei para agendar horário e explicar para a mona o que eu queria que fosse feito na ocasião, deixando bem claro que eu gostaria que elx cortasse meus cabelos ao ar livre e no jardim existente no fundo da casa onde o salão está instalado e bem longe do ar-condicionado.
Quando cruzei o espaço em direção à parte externa da casa, percebi que toda a equipe estava seguindo os protocolos de segurança do momento e portando duas máscaras distintas; uma descartável por baixo e o face shield, escudo transparente por cima.
Eu não quis que meus cabelos fossem higienizados no lavatório e não me importei de debruçar minha cabeça sobre o tanque local. Lavar as madeixas em água fria facilita a remoção de impurezas e células mortas presas no couro cabeludo e ainda reduz a oleosidade, a descamação e o surgimento de caspas, né!?
No entanto, Marcelona estava ávida por novidades, com vontade de conversar e ficou me perguntando sobre tudo e todos. Respondi de forma monossilábica e pela primeira vez não houve uma verdadeira oxigenação em nossas trocas.
Os meus cabelos sofreram um corte de seis dedos e agora eles estão um pouco abaixo dos ombros, comprimento ideal para encarar as altas temperaturas dessa primavera que já promete!
E antes da chegada do verão 2020, eu vou iluminar meu visu com o feitio de luzes claríssimas porque atualmente eu estou desfilando com um capacete permanente na cabeça porque minhas raízes estão escuras, crescidas e contrastando com as pontas claras.
O problema é que eu continuo nessa gangorra de duvidas sobre a flexibilização da quarentena e minhas vontades não estão conseguindo sobrepor-se sobre as minhas paranoias e angustias, há, há, há…
Para me tranquilizar, Marcelona me disse que as luzes poderiam ser feitas ao ar livre como o corte de cabelo e conosco brincando de vaca amarela, sem conversarmos. Difícil, hein!? Permanecer por quatro horas em silencio, tempo normalmente gasto para clarear meus cabelos, e rindo somente com os olhos…
Acho que nem se eu virasse um vidrinho de floral inteiro eu conseguiria relaxar por tanto tempo. Pelo visto, a solução será eu me acostumar com minha cabeça bicolor até a chegada de uma vacina ou fazer luzes com a ajuda da mamãe, afinal de contas eu virei sua tinturista oficial e agora ela pode me retribuir o favor me ajudando a dar um tapa no visual.
Voltei para casa feliz da vida e balançando os cabelos de um lado para outro como seu fosse uma boneca. O peso de meses de quarentena foi deixado para trás, no chão de cerâmica e daqui para frente preciso apenas normalizar minhas inspirações e expirações rotineiras e me munir de coragem para também voltar à academia.
Vem vacina!

Maria Oxigenada
Foto: reprodução