O falatório está grande em torno do filme “Mignonnes” e eu resolvi assisti-lo para ver se ele é isso tudo que tem sido dito nas redes sociais. A produção franco-senegalesa está causando entre os assinantes da Netflix e sendo acusada de sexualizar em demasia crianças, especialmente no cartaz de divulgação da obra.
Muita calma nessa hora, Brasil! Primeiro nós vamos falar sobre o enredo do filme e depois compreender os motivos do retrato feito pela roteirista e diretora do longa-metragem Maiomouna Doucouré.
A personagem principal da obra chama-se Amy (Fathia Youssouf), de 11 anos. Ela e sua família estão de mudança para uma casa maior porque seu pai resolveu aumentar a família e casar-se novamente com uma segunda esposa.
Pois é! A bigamia é aceita em alguns países e religiões e tanto Amy como sua mãe e seus irmãos menores precisarão engolir mais essa, além de aceitar as restrições sociais e econômicas que eles estão vivendo no momento, pois a família é pobre, reside na quebrada francesa e, ainda, precisa desviar parte de sua renda para a organização da festa de casamento.
Outro fato que devemos levar em consideração é que a protagonista também está começando o seu ano letivo em uma nova escola e para se enturmar com a galera, ela insiste em fazer parte e integrar um grupo de meninas que dançam e que têm a intenção de participar de um campeonato da modalidade.
Entretanto, os dramas da personagem principal não param por aí, não! Ela acaba de adentrar na pré-adolescência e precisa lidar com uma enxurrada de outras mudanças, como as físicas e as psicológicas porque Amy menstrua pela primeira vez e descobre o funcionamento de seu próprio corpo e de sua sexualidade.
Como muitas outras meninas, Amy também não teve uma educação sexual e acabou aprendendo sobre a temática através de vídeos compartilhados nas redes sociais, especialmente os de coreografias sensuais. Efeito da cibercultura, minha gente!
Ao reproduzir os passos e coreografias vistas, as meninas da película não tem ideia do significado dos movimentos feitos, pois para a apresentação pensada para ser feita diante dos jurados do campeonato elas inseriram reboladas, quadradinhos, “sarradas”, além de descidas até o chão, entre outras posições que simulam algumas sexuais e que nós brasileiras estamos cansadas de ver em coreografias feitas por funkeiras, inclusive as menores de idade.
A verdade é que não só as personagens da obra estão perdidas diante de tantas informações, como também muitas outras adolescentes e jovens
espalhadas por todo o mundo. E esse encurtamento da infância e antecipação da fase adulta tem estimulado o consumo de produtos e até de brinquedos como bonecas com rostos e traços de adultos que ostentam makes carregados e roupas sexies. Já repararam nisso?
“Mignonnes” é sim um filme com dramas humanos e com cenas cruas, mas também é uma película sensível, delicada e que acompanha o processo de amadurecimento da protagonista.
Destaque para duas cenas distintas da obra. A primeira é quando a personagem é, literalmente, benzida pela mãe e tia com água gelada e para esquentar o corpo e parar de bater os dentes, ela começa a dançar de maneira sensual diante das duas.
Já a segunda cena é a que fecha o filme e que evidencia como Amy ainda está dividida e oscilando entre a prática de atividades infantis e outras juvenis e em busca de sua própria identidade.
“Mignonnes” abocanhou uma estatueta no Festival de Sundance de Cinema deste ano como melhor direção para Maimouna Doucouré e apesar de estar sendo vitima de boicotes atualmente, eu gostei da película! E, sinceramente, não a acho mais chocante do que “Kids”, de 1995, ou “Eu, Christiane F. – 13 anos, drogada e prostituída”, de 1981, ou a produção nacional “Anjos do sol”, de 2013, entre outras já vistas, comentadas neste espaço e que têm crianças ou pré-adolescentes no centro de suas historias.
Até a próxima aventura,
Maria Oxigenada
Foto: reprodução