Vários foram os esforços para aliviar os dias de isolamento social através da cultura e arte. Primeiro vieram as lives musicais, depois as peças teatrais, os musicais e espetáculos de dança on-line. Na sequencia, os shows e exposições artísticas no formato drive-in foram criados e, por fim, um mix disso tudo, ou seja, uma mescla de duas linguagens artísticas entraram em ação durante a flexibilização da quarentena.
E foi entre os dias 7 e 11 de setembro que os espectadores puderam acompanhar virtualmente as apresentações de “Dançando Palavras”, projeto desenvolvido entre os integrantes do Balé da Cidade de São Paulo com alguns poetas da periferia da capital paulista.
Na verdade, os poemas declamados pelos seus autores em frente às câmeras foram animados por coreografias desenvolvidas pelo corpo de baile que utilizou soluções cênicas, como o uso de fios de lã vermelha, de plásticos, de lenços coloridos, de imagens do mar e da natureza para avolumar e ilustrar as obras.
Isso foi algo interessante de se ver, mas as temáticas abordadas nos poemas também proporcionaram aos espectadores possibilidades de reflexões, pois a maioria deles levantou questões sobre o racismo, de pertencimento social, bem como da importância da cultura afro na formação de nossa identidade, como também na relevância da arte desenvolvida entre as quebradas, vielas, becos e ruas locais.
Todos esses assuntos recheiam e colorem de vida os poemas “Contra indicação”, de Cleyton Mendes, “Modernistas de novos tempos”, de Debora Garcia e também o poema “Águas”, de Abigail Campos Leal.
Já o poema “Imaginárias”, de Daniela Solano, fala sobre os imigrantes e a crise imigratória mundial, pois a artista fez questão de destacar não só os movimentos feitos por todos eles ao deixar suas terras natais, como também suas necessidades de adaptação e de reinvenção depois de atracarem em novos portos ou cruzarem as fronteiras de outros países.
As lembranças e saudades da infância, da terra e de seu povo são muitas e continuarão pulsando dentro de cada um, mas agora os imigrantes precisam abrir espaço em suas vidas e corações para novas culturas, novos costumes e novas realidades e assim, amenizarem dores, esquecerem episódios de violência e vislumbrarem um futuro com tonalidades amenas.
Cada um dos quatro shows vistos possui uma estética distinta, porém criativa porque todas as coreografias foram construídas com objetos e acessórios baratos e fáceis de serem encontrados em lojas populares, dentro dos guarda-roupas ou acervos pessoais dos bailarinos.
Já as trilhas sonoras dos espetáculos foram feitas com as contribuições da Orquestra Sinfônica Municipal e com a presença de sons tirados de tambores, de violinos, da réplica de movimentos feitos pelas ondas do mar ou emitido por quedas naturais de águas doces.
Sem sombra de duvidas, o mais interessante do projeto foi dar voz e visibilidade aos artistas da periferia, entrelaçando diálogos entre o corpo em movimento com palavras que descrevem situações vividas pelas minorias.
E para fechar a experiência sensorial, vocês ainda podem conferir o bate-papo realizado entre os poetas citados acima e integrantes do Balé da Cidade sobre o projeto conjunto e sobre a relevância das temáticas abordadas neste.
Eu indico a aventura completa!
Maria Oxigenada
Serviço:
Onde ver: através da pagina do Theatro Municipal de São Paulo nas redes sociais ou Youtube.
Foto e video: reproduções