A pandemia acelerou algo que já estava em curso há anos em nosso país. O desmonte de áreas importantes, tais como: cultura, educação, comunicação, meio ambiente, pesquisas, preservação de patrimônios históricos e culturais, entre outras que estão desmantelando-se diante de nossos olhos sem cerimonia alguma.
A decomposição social citada acima está presente no monólogo “O Desmonte”, através de questionamentos feitos pelo personagem principal, interpretado pelo ator Vitor Placca, mas a peça reflete sobre outro desmonte, aquele pessoal sentido após o fim de um relacionamento amoroso e que vem junto à perda de um grande amor.
Vocês até podem achar que eu estou ficando louca e que não há relações entre as duas coisas, mas o fato é que elas existem, sim! O que muda é o cenário visto, o personagem sob os holofotes, os objetos e pessoas que compõem seu entorno. No entanto, o estado melancólico, o abatimento físico e mental dos envolvidos assemelha-se, além da diluição da historia.
Na obra, o protagonista está só, sem amigos e a companhia de conhecidos. Ele arrasta-se pelos dias da semana, contrapondo o ritmo visto em uma grande cidade. Até mesmo as tarefas simples do cotidiano, como tomar banho diariamente torna-se cansativa e o personagem passa horas relembrando momentos felizes ao lado de seu amor ou repassando em sua mente os motivos do ponto final.
Tudo muda depois que ele recebe a visita de um rato durante a madrugada e o animal acaba dando um novo sentido à vida do protagonista. Agora, ele tem com o que se preocupar e precisa tomar algumas providencias para capturar o roedor, como espalhar veneno por todos os cantos da casa, assim como ratoeiras.
No momento, são dois corpos distintos ocupando o pequeno espaço. O problema é que com a chegada do rato também veio Saturno, o planetinha da cobrança que potencializa as mudanças, além de ser indicativo de fins e inicios.
Tragédias como as que estamos vivendo na atualidade também fazem parte de suas interferências, por isso a luz vermelha é acionada depois que o personagem recebe a ligação de sua ex falando que passará pelo local para pegar o restante de suas coisas.
O que os espectadores podem esperar desse encontro cênico?
Na verdade, o que posso dizer é que “O Desmonte” é uma peça baseada no livro homônimo, escrito por Amarildo Felix, e que conta com um protagonista que fracassa nas tentativas de superar o fim de um relacionamento e de acabar com a vida de um rato, instalando-se crises que corroem com as estruturas não só do apartamento em que mora, como também de suas bases emocionais.
O interessante é que o amor é o fio condutor da peça, ora sendo tratado de maneira piegas, ora de modo pueril, volúvel e compatível com a faceta liquida vista em algumas relações firmadas no século XXI.
Para trazer maior concretude ao monólogo, os cômodos de um apartamento foram usados como cenário da peça e o mais legal é que todos os espaços foram preenchidos pela narrativa e nós pudemos ver a construção de uma iluminação baixa, escura e compatível com o estado de espirito do protagonista.
Já o figurino se restringiu a uma calça de pijamas ou um mijão branco usado pelo ator Vitor Placca, reforçando ainda mais o estado desleixado e deprimente do personagem.
Agora, eu tirei o chapéu para a capacidade do ator em decorar suas falas porque no roteiro da peça há trava-línguas, ou seja, frases difíceis de serem pronunciadas, formadas por silabas parecidas e que são manifestações da cultura oral popular, do folclore brasileiro e não é que ele não errou em nenhum momento…
Alguns exemplos de trava-línguas: “o rato roeu a roupa do rei de Roma” ou “três pratos de trigo para três tigres tristes” ou “atrás da porta torta tem uma porca morta” ou “o sabiá não sabia que o sábio sabia que o sabiá não sabia subia”, entre outros.
Por tudo que foi citado acima, “O Desmonte” é um programa cultural que não entendia o espectador e que o faz refletir a respeito de vários assuntos orbitantes na vida de todos nós hoje.
Beijos,
Maria Oxigenada
Serviço:
Onde ver: na página do Sesc no Youtube.
Preço: Grátis.
Foto: reprodução