Perder os cinco sentidos é perder parte das cores da vida, né não? Que graça tem não sentir o cheiro do café fresco ou de um bolo saído do forno? Ou não ouvir as primeiras palavras dos filhos ou o canto dos passarinhos todas as manhãs? Ou não poder enxergar as belezas naturais ou, pior, não sentir o toque de seu gatx?
Difícil, hein!? Põe difícil nisso! Agora, o interessante é que o monólogo “Amanda”, de Jô Bilac, aborda exatamente esse tema comum na atualidade, pois a perda de paladar e de olfato são alguns dos sintomas do Coronavírus.
O espectador acompanha as descobertas da protagonista da obra, interpretada pela atriz Rita Clemente que, aos poucos, vai perdendo os seus sentidos e agarrando-se em suas memorias para não enlouquecer de vez.
Ela não passa pelo processo de negação do fato, mas tenta sim esconder e disfarçar os sintomas de seu marido Lucio e de sua prima Emily. O primeiro para não preocupa-lo porque Lúcio é comissário de bordo e sua rotina é voar, especialmente para fora do país. Já a segunda é para evitar falatórios entre familiares, já que Emily é uma pessoa verborrágica.
Como previsível, Amanda fecha-se no seu próprio mundo, restringindo suas saídas de casa, os encontros com amigos e conhecidos e evitando por completo visitas a médicos e especialistas. Ela prefere viver seu dia-a-dia e sua nova realidade da melhor maneira possível!
A personagem torna-se uma observadora de si e do comportamento alheio, especialmente no que tange a linguagem corporal dos outros e, paulatinamente, descobre que está de posse de uma arma potente que é o seu sorriso.
Sorrir para todos e o tempo inteiro tem o poder de desarmar qualquer pessoa, assim como dissolver qualquer mal entendido ou situação constrangedora, transformando a autora desses sorrisos em uma pessoa adorável e passiva, pois a verdade é que a personagem não entra mais em discussões e nem impõe suas opiniões a quem quer que seja.
Seu futuro está comprometido! Fato. Mas ela tem suas lembranças, tanto as boas como as ruins, como a perda de seu pai quando ela foi obrigada a redimensionar sua vida, imprimindo outro ritmo e fluidez nesta.
O engraçado da obra é que enquanto ainda ostentava parte de seus sentidos, Amanda fez algumas experiências como mastigar sabonetes como se fossem gomas ou adivinhar os momentos exatos das visitas de Emily, ou ainda, usar o fio de voz ouvido de sua prima como mantra para momentos de meditação ou nos quais precisava de uma trilha sonora para ser catapultada para seu próprio planeta.
Sim! Ela questiona Deus dos motivos que o levaram a escolhê-la para passar por tal situação. No entanto, nunca obteve respostas, mas a atriz Rita Clemente recebe em cena uma carta da própria personagem explicando os motivos de suas crises de choro, de risos, das oscilações de humor, mas também as fraturas deixadas pela sua condição física atual.
E para ilustrar todo esse processo de deterioração pessoal, pratos de louça são quebrados em cena e enquanto a atriz Rita Clemente anda pelos corredores de um prédio ou sobe e desce as escadas com uma pilha deles nas mãos.
A iluminação e fotografia da obra são outros recursos cênicos usados para carregar na dramaticidade contida na peça, ora recorrendo ao uso de luzes coloridas, ora utilizando-se de imagens desfocadas para representar a perda parcial da visão da personagem.
O maior ganho em assistir “Amanda” é acompanhar a interpretação da artista, observando as oscilações vocais, suas expressões faciais, seu domínio cênico diante das câmeras e, principalmente, a carga dramática que precisou trazer à tona para construir essa protagonista digna de amor como seu próprio nome faz referencia.
A mensagem deixada pela obra é que as perdas, sejam de quais ordens elas forem, sempre nos impactam! E de que a vida é assim: surpreendente, misteriosa e exigente para algumas pessoas.
Eu gostei!
Maria Oxigenada
Serviço:
Onde ver: na página do Sesc no YouTube.
Preço: Grátis.
Foto: reprodução