Alertas são disparados mensalmente por profissionais de saúde e cada um deles é feito através de uma cor distinta. O mais conhecido de todo é o “outubro rosa” que tem a finalidade de advertir as mulheres em relação ao câncer de mama, mas o mês número dez não é mais importante do que o número 1, por exemplo, que foi batizado de branco por alertar sobre a saúde mental das pessoas ou o mês de agosto que está identificado com dourado para ressaltar a importância da amamentação ou aleitamento materno, ou mesmo, o mês de dezembro que recebeu a cor vermelha para abrir os olhos da população sobre doenças ainda incuráveis como a AIDS.
E o mês de setembro? Ele continua patriota e desfilando com trajes verde e amarelo, mas a tonalidade solar tem se sobressaído em cima da ecológica para chamar a atenção sobre o crescente numero de pessoas que estão se suicidando.
E é exatamente essa temática que o monólogo “Um dia a menos” com a atriz Ana Beatriz Nogueira trata. Em cena, a artista arrasta as várias camadas da personagem Margarida Flores. Solteirona e virgem aos 50 anos, ela acaba de enterrar sua mãe e sua principal companhia diária e nem mesmo a presença de Augusta, empregada da casa, ela pode desfrutar neste momento, pois ela tirou férias para resolver assuntos pessoais.
Esta só.
No entanto, o dilema de Margarida é: como preencher seu tempo livre? A personagem não precisa trabalhar fora porque desfruta da pensão deixada pelos pais, não curte realizar trabalhos manuais ou domésticos e, muito menos, vê graça em praticar atividades físicas ou acompanhar a cena cultural da cidade.
Na verdade, ela gasta suas horas entre revistas velhas deixadas pela mãe, com filmes de faroeste reprisados na tv, além de xicaras de chá acompanhadas de torradas ou com pequenos afazeres domésticos como a arrumação de suas gavetas, especialmente a de calcinhas.
Outro entretenimento da protagonista da obra é observar os ruídos emitidos pela frigideira em ação ao esquentar suas refeições ou com o feitio de uma fina camada branca e cheirosa oriunda do deposito de pó de talco nas dobras mais profundas de seu corpo porque a verdade é que Margarida é uma mulher plus size.
Vez ou outra, sua calmaria é quebrada pelo seu próprio vizinho que insiste em furtar seu jornal diário ou pelo grito do telefone fixo e a interferência de estranhos do outro lado da linha passando trotes. Aliás, em um desses episódios que mais parece conversa de malucos, uma mulher chamada
Constança insiste em falar com a Flavia e depois de descobrir que ligou no número errado, ela convida a personagem principal para um encontro junto à mesa de carteados e regado a drinques feitos com bebidas destiladas.
Não preciso nem dizer que a protagonista declina ao convite, afastando de vez a possibilidade de socialização, de conhecer novas pessoas ou sair de casa. Pelo contrário, ela está mais agarrada do que nunca em suas vivencias repetitivas no ambiente domestico.
Até sua insônia bate ponto todas as noites para não perder o costume, obrigando Margarida a recorrer aos vidros de ansiolíticos deixados pela sua mãe. Os comprimidos estão vencidos, mofados e com gosto de açúcar, mas mesmo assim seu canto de sereia a hipnotiza ao ponto dela virá-los de uma única vez, acompanhados de goladas de água, colocando ponto final ao seu sofrimento pessoal.
“Um dia a menos” é uma peça necessária de ser vista, especialmente porque há muitas pessoas solitárias passando pela pandemia e sem contato algum com parentes, amigos e conhecidos e já com sua saúde mental e seu estado emocional sendo afetados pelas noticias de hoje e por pensamentos diversos.
A aventura com a atriz Ana Beatriz Nogueira foi boa, viu! A artista estendeu sua mão ao espectador e o conduziu através de um texto que, a princípio, parece simplista, repleto de trivialidades, mas com o passar dos minutos ele revela toda a sua densidade através de palavras bem colocadas e a presença do complexo processo de pensamento da personagem, onde seu raciocínio logico é entremeado a associações de ideias e impressões pessoais.
Eu indico a experiência em qualquer dia da semana!
Maria Oxigenada
Serviço:
Onde ver: na página do Sesc no YouTube.
Preço: Grátis.
Foto: reprodução