A comemoração era para ser prazerosa, mas acabou virando uma nóia! Na véspera do Dia dos Pais, nós resolvemos sair para almoçarmos fora e no restaurante preferido do meu pai.
Preocupados com o movimento que a data propicia nós antecipamos em um dia o encontro à mesa, mas antes disso meu pai fez questão de reservar uma das poucas mesas existentes na parte externa do estabelecimento comercial e logo no inicio de suas atividades.
Confesso que eu ainda estava com o café da manhã entalado na garganta quando embarcamos na aventura. Eu não comentei nada com ninguém para não arrumar confusões e nem receber criticas, pois papai estava animadíssimo com a ocasião.
Como esperado, a brigada do restaurante estava toda mascarada e a espera dos clientes. Além disso, todos nós tivemos nossas temperaturas aferidas na porta do restaurante e recebemos pequenos jatos de álcool gel para higienizarmos as nossas mãos.
Logo que entramos, eu percebi que algumas mesas tinham sido removidas e que o salão estava operando com 40 % de sua capacidade, cumprindo as normas de distanciamento exigidas pelas autoridades sanitárias. Cada mesa tinha seis cadeiras no máximo e foi perfeito para nós, pois estávamos em cinco pessoas porque meus avós preferiram permanecer entocados e em casa.
Outra mudança foi que não havia cardápios impressos disponíveis e nós tivemos que baixar suas versões on-line para fazermos nossas escolhas. As mesas também não estavam postas como de costume com os talheres e taças presentes. Aliás, eles só chegaram até nós segundos antes dos pratos escolhidos e ainda por cima embalados.
Outros itens que tomaram chá de sumiço foram os saleiros, pimenteiros e guardanapos de pano. Eles receberam novas roupagens e atualmente chegam através de saches ou foram substituídos por suas versões descartáveis.
No entanto, as caraminholas começaram depois que acompanhei mamãe ao toalete e percebi que o acionamento tanto da descarga local como da torneira existente para higienizar as mãos permanecia manual e não através dos pés como visto em alguns países orientais.
Daí eu fantasiei a proliferação de germes e bactérias pelo ambiente, bem como a festa de boas vindas dada pelo nosso querido coronavírus e acabei desmanchando o sorriso que estava escondido por baixo da mascara e vi nascer uma vontade indiscriminada de picar a minha mula do local. É claro que me contive depois de observar de longe a alegria do papai e do meu sogrão.
Abaixar a mascara foi outro obstáculo que tive que superar para fazer a refeição em família. Nos primeiros instantes, a comida desceu com dificuldades e entalando pelo trajeto, mas percebi que todos estavam saboreando-a em paz, silenciosamente e sem realizar trocas verbais.
Novos tempos, né Oxigenadas!
E entre a remoção dos pratos da mesa e a chegada das sobremesas e cafezinhos, eu subi novamente minhas defesas e a parede protetiva feita com duas camadas de tecidos, sendo a externa de poliéster e a interna de poliamida.
Entretanto as amarras de preocupação afrouxaram depois que voltei para casa, tomei outro banho, troquei minhas roupas, escovei meus dentes e me senti imune aos novos ataques do queridão.
Que adrenalina, meu Deus!
Já o domingo transcorreu sem sobressaltos e alterações na frequência cardíaca. Nem mesmo o kit de cafés gourmets de regiões distintas do Brasil que presenteei papai na data festiva modificou o ritmo costumeiro do dia de descanso.
Uma nova semana começou no ritmo do momento, mas com margens para a realização de novos encontros à mesa e novas aventuras gastronômicas porque o governo do Estado de São Paulo liberou na última semana o funcionamento de restaurantes e bares até às 22h.
A pergunta que não quer calar é: será que tenho coragem de encarar um happy hour com a galera?
Sei, não!

Maria Oxigenada
Foto: reprodução